Síntese:
– Saneamentos e reforço da segurança na RDP aquando do 25 de novembro de 1975
– De autodidata a formador: o surgimento da proposta de Reengenharia de Som e do Centro de Formação na RDP
– Do ensino do manuseamento de equipamento ao fim do jornalista passivo perante a captação e edição do som
– A efemeridade dos formatos de armazenamento de informação: o caso do áudio
– A arte da sonorização
– A captação de áudio no teatro: entre os textos subversivos ao regime e atos de generosidade da chefia
Transcrição:
00:00:11 -
RR: Mudanças políticas: houve bastantes.
Saneamentos: houve pessoal colocado na prateleira.
Houve quando foi o 25 de novembro.
FSS: Aí sim.
RR: Alguns, só passados anos depois é que
voltaram e ficaram também muito afetados
porque…
FSS: Não tão grave quanto no Rádio Clube
00:00:30 -
Português.
Foi tudo, praticamente.
RR: A questão que se põe aqui é: quem é
que tinha o poder?
Eram os militares.
Enquanto o Conselho da Revolução existiu
e a Quinta Divisão, eram os militares.
FSS: Mas no 25 de novembro, quem fosse suposto
ter ligações ao PC foi para casa.
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RR: E aos outros.
À UDP…
FSS: A maior parte foi para casa.
RR: Ou ia para casa.
FSS: De vez.
RR: Exato.
Mas foi difícil porque houve muitos colegas
que ficaram afetados mais tarde.
00:01:15 -
Depois voltaram.
FS: Houve reintegrações.
FSS: Alguns deles anos depois.
RR: Mas, depois, também não voltaram assim….
Foi-lhes dada a oportunidade de entrarem e,
quando é assim, é o tal estigma, veio marcado,
com razão ou sem razão.
00:01:34 -
Nós sabemos que se fez muita asneira.
Muita “Burricada das Lezírias” como dizia
o outro.
Mas os tempos eram aqueles.
Os tempos eram aqueles.
É como o outro “É a PIDE!”.
Eu vi, todos nós vimos.
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Alguns foram galardoados, outros fugiram de
Alcoentre e pronto.
FSS: Havia militares fardados dentro da rádio?
RR: Havia.
Só os graduados e com funções de chefia.
Era legítimo.
Porque havia militares cá em baixo, à entrada,
um ou dois ou três, que com as suas G3 faziam
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a sua segurança.
Mas…
FSS: Aliás, um Presidente do MFA, o major
João Figueiredo.
RR: Sim senhor.
Major João Figueiredo que era tio, por afinidade,
da minha mulher.
E ele era Presidente do Conselho de Administração
e eu pertencia à Comissão de Trabalhadores
00:02:37 -
mais tarde, desde essa altura.
E a malta “Epá, Remígio” e eu “Desculpem
lá”.
Eu podia ter beneficiado de alguma coisa,
não beneficiei.
Tive lá o tio, o José Dias, não foi o Figueiredo.
O José Dias foi a seguir ao João Figueiredo.
E esse não beneficiei porque… Por exemplo,
eu ia buscar os filhos lá a Mem Martins à
00:03:08 -
casa dele, passado um bocado mandava recado
a chamar.
Servia-me um uísque: “Então, conta lá
as novidades”.
“Não sei, não tenho novidades nenhumas”.
No fundo, a tirar nabos na púcara.
E eu pertencia à Comissão de Trabalhadores
e ele era major, era o diretor, estava a exercer
o cargo mais alto dentro da RDP.
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E eu era o simples operador, já não era
auxiliar.
RR: Acerca do autodidatismo e da formação.
Quando eu começo a fazer formação – e antes
de ter chegado ao início da TSF …
FS: Mas antes disso ainda temos a reestruturação
da Emissora Nacional em RDP.
RR: Mas isso acontece…

FS: E depois vai ter responsabilidades, penso,
que na RDP.
00:03:53 -
RR: No Núcleo Operacional do Quelhas.
FS: Na proposta de Reengenharia de Som para
a Radiodifusão Portuguesa.
Informação aqui do Francisco.
RR: Sim.
Eu não era, eu não tinha valor nenhum dentro
da RDP.
Eu vou dar um exemplo: em função do estigma
que me foi marcado e em função daquilo em
00:04:18 -
que eu estava a ser prejudicado, eu, um dia,
tomei uma decisão: qualquer que seja, ou
venha a ser, o meu futuro só me vão poder
classificar como um bom ou mau profissional.
E então foi, a partir daí, que fiz a minha
carreira como profissional.
Não abdiquei de vir, mais tarde, a pertencer
à Comissão de Trabalhadores, não abdiquei
de ser sindicalizado, não abdiquei de ir
às assembleias, não abdiquei de ser nomeado
como responsável técnico para que as eleições
corressem bem – no princípio, eram todas
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a votação, íamos para um espaço na Gulbenkian
e, mais tarde, deixou isso de acontecer -, mas,
esta decisão, eu tomei.
E dela não estou nada arrependido.
Porque eu disse “Esta vai ser a minha profissão”.
FSS: Mas tudo isso também mostra o reconhecimento
de toda a gente dentro da casa.
Eras o Papa do som.
00:05:18 -
Era essa a ideia.
Ainda hoje.
RR: Tive uma grande casa que foi o estúdio
do Alberto Nunes.
Tive uma grande escola como tive com o Leonel
Silva.
Com o Silva Alves.
Com o Forjó.
00:05:34 -
Com o Vasco Fernandes.
FSS: Mas na sonoplastia.
RR: Exato, sonoplastia, em São Marçal.
Mas gravação de teatro, eu nunca tinha gravado
teatro.
E, portanto, tive de aprender.
A planificação do teatro.
00:05:47 -
Nós fazíamos, antes de começar a gravar,
havia ensaios prévios.
Para ver, eu tinha um texto onde constava
que, entra o ruído tal que não estava gravado
e era preciso gravar e, portanto, é preciso
agarrar num gravador portátil e gravar estes
sons….
Ir aos sons.
Porque, hoje em dia, temos tudo na Net.
00:06:09 -
Os sons de tudo e mais alguma coisa.
Naquela altura, só tínhamos os que existia
em disco.
E, alguns deles, os discos já estavam de
tal maneira copiados e gravados que, se precisássemos
de aplausos, os aplausos notava-se que o barulho
do disco já estava… Os aplausos do S.
Carlos não davam, por exemplo, para o Coliseu.
Os aplausos do Teatro de S.
00:06:34 -
Luís ou do Villaret também não davam para
não sei quê.
E, quando começam os grandes espetáculos,
onde é que os primeiros espetáculos passaram
a dar: no Coliseu e no Pavilhão dos Desportos.
Que Lisboa não tinha nenhum… Os chamados
comícios, chamados cantos…
FSS: Canto Livre.
RR: No pavilhão, hoje Carlos Lopes, dos Desportos.
00:07:00 -
E, na sequência dos espetáculos, a entrega
do prémio de imprensa ao José Afonso, em
março de 1974.
Que eu estive, felizmente, quando o Manuel
Freire dizendo o caminho de Aveiro para cá
perderam-se.
“Há uns papéis, umas coisas que eu queria
cantar.
Eu sei, mas não me lembro”.
00:07:25 -
Era a maneira dele de dizer que tinha acabado
de ser censurado.
FS: Que proposta era esta de Reengenharia
de Som da Radiodifusão Portuguesa?
Em que consistiu esta proposta?
Como é que ela depois foi acolhida pelos
corpos da direção?
RR: É simples, repare: nessa altura, todos
nós, numa empresa que está em crescimento,
sentíamos que podíamos dar um contributo.
00:07:50 -
Porque a Emissora Nacional, temos de reconhecer,
foi uma grande escola, mas é uma máquina
pesada.
Funcionários públicos….
Qualquer mudança demora muito.
Mesmo com predisposição à mudança, eu
dou um exemplo que pode satisfazer isso: eu
fiz algumas propostas e, quando sou aceite
e sou convidado a ir para o Centro Técnico
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de Formação – porque a última coisa que
eu fiz antes de me vir embora, reformado,
foi: dou o mesmo tipo de formação a todos.
Os locutores, os realizadores, por aí fora.
FS: Responsável técnico de formação da
RDP.
RR: Tal e qual.
Ou seja, dizia eu, numa casa como a Emissora
Nacional, era bom que não mudassem só as
00:08:40 -
chefias em função das orgânicas político-partidárias
e dos militares, mas que, uma casa, por exemplo,
não tinha realizadores, não tinha programadores…
A programação era a programação feita
por… secretárias.
Programadores no sentido lato da coisa, que
é o homem responsável por… tudo.
Contrata, descontrata, busca, vai buscar os
melhores… não havia.
Realizador também não havia.
00:09:07 -
FSS: Não havia formação sequer.
RR: Não havia formação, tal e qual.
Quando o novo, jovem, Carlos Fogaça, sociólogo
de formação, vai para a frente do centro
de formação e faz formação de cima a baixo
e de baixo a cima….
Consegue ir fazendo formação e, quando chega
aos quadros superiores da administração,
não quiseram.
00:09:36 -
E sabe qual foi a reação dele?
Demitiu-se do lugar.
Pôs o lugar à disposição e veio-se embora.
Saiu da empresa.
FS: Mas tinham passado dez anos.
Imagino que em 1983, quando passa para a RDP,
é quando se dá este processo todo de reestruturação,
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não é, da Emissora Nacional que se transforma
em RDP, depois há ali dez anos sem nenhuma
aposta, por exemplo, a esse nível.
Formação.
FSS: A RDP está quase uma década em grande
dificuldade.
Muito à deriva, muito controlada politicamente.
RR: E mais: quando acontece a grande mudança
que começa a aparecer as ameaças das rádios,
00:10:16 -
cá fora…
FSS: As privadas.
RR: De onde é que saem os quadros para a
televisão, para a TSF, para tudo isso?
Da RDP.
FSS: Sim, toda a gente.
FS: É desfalcada.
RR: Afinal, a Emissora ou a RDP tinha bons
quadros?
00:10:37 -
Tinha.
Onde é que trabalhava o Rangel?
Na RDP.
Onde é que trabalhava o engenheiro Jaime
Filipe?
Na RDP.
Há mais exemplos.
00:10:47 -
E, portanto, quem diz pelo país todo.
E eu estou à vontade porque, quando comecei
a fazer formação, era operador auxiliar.
E vou fazer formação, pela primeira vez,
aos Açores e depois à Madeira.
Quem é que vai comigo também fazer formação:
um chefe de departamento, que foi o meu chefe,
Espírito Santo.
Que era chamado engenheiro técnico, de formação
académica.
00:11:08 -
E eu operador auxiliar.
Ele tinha as ajudas correspondentes e eu tinha
as ajudas mais baixinhas.
Fazíamos o mesmo, mas ganhávamos completamente
diferente.

A única coisa que pagavam era: viajávamos
no mesmo avião que era TAP.
Açores.
Quando chegamos à Madeira, a ação de formação
é feita… há coisas maravilhosas na minha
00:11:38 -
vida.
Sou dos homens mais felizes em termos profissionais.
Acredite que é verdade.
Chegamos à Madeira, é assim: vamos aos Açores
uma semana, ação de formação.
E eu nunca tinha estado nos Açores: um edifício
antigo, uma vivenda, maravilha.
Fiquei logo com amigos em todo o lado porque,
no fundo, o que é que eu levava: tudo bem
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preparadinho, tudo muito preparadinho, mas
aberto a que eles me dissessem os problemas.
E a minha muita experiência era tentativa
de solucionar.
Um dos problemas era a humidade das fitas.
Paravam devido ao óxido.
Foi na sequência disso que eu consegui descobrir
a diferença entre um I e um J: umas eram
boas e outras eram vendidas… Dentro da empresa
RDP, alguém as vendeu, ganhou dinheiro e
00:12:27 -
eram falsificadas.
Vinham da Indonésia.
Açores, de seguida, da Madeira.
Mas o avião veio primeiro a Lisboa: não
sai da pista e mete passageiros para o Funchal.
Funchal: eu dava a minha ação de formação
de manhã, das 9h às 13h.
Era a minha terra, tinha saído de lá em
pequeno.
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Fui lá doze vezes, a última fui convidado
para a formação sobre música e novas tecnologias.
No Polo Tecnológico do Funchal.
Tinha saído da RDP.
Mas dou a minha primeira aula, ação de formação,
primeiro dia e, ao fim do dia, o chefe de
departamento Espírito Santo vem ter comigo
“Ó Ruizinho, eu posso amanhã assistir
à tua aula?”.
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“Gostava muito, não tenho problema nenhum”.
Ele vai, está lá e, ao fim de hora e meia,
duas horas, diz assim “Epá…”.
Fez-me um elogio de alto gabarito.
“Epá, eu pensei que sabia alguma coisa.
Olha que tu não podes continuar com essa
categoria”.
Assim, tal e qual.
00:13:41 -
Eu sei que, a partir daí, nunca mais quis
aparecer.
“Tomara eu”.
Eu tenho a noção do que é a pedagogia.
De cada ato que se faça.
Eu estou a aprender, mas estou a aprender
como é que o outro lado reage àquilo que
eu ministro.
00:13:58 -
Abrir a boca e pôr lá alguma coisa para
saborear porque, fechar a boca, não serve
só…
Por isso é que existem aí muitas ações
de formação e eu fiz ações de formação
como formador, onde fui aprender muita coisa.
E uma das coisas que eu aprendi é: é como
o outro “só sei que nada sei”.
Não era bem assim: o pouco que sei pode vir
a servir-me de aprendizagem para mais aprendizagem.
00:14:22 -
FSS: Há um momento decisivo na rádio que
é, à entrada dos anos 80, um protocolo europeu
da RDP.
Levou à vinda, cá do Edouard Gibert, que
marcou decisivamente tanto a rádio como a
televisão.
Primeiro, foi um curso de seis meses na Sampaio
e Pina, nas instalações do ex-Rádio Clube
Português.
00:14:47 -
E depois, a seguir, o impacto desse curso
levou a que a direção da RDP decidisse ativar
o centro de formação.
O Carlos Fogaça, etc.
E há ali um momento que é decisivo.
Não sei se tens essa noção.
Os jornalistas da rádio não sabiam trabalhar
com o som.
00:15:04 -
Ou seja, era suposto escreverem para o microfone,
mas não trabalhavam o som.
E és tu quem, nessa formação, começa a
introduzir o trabalho.
Os jornalistas também com som.
RR: Manuseamento de equipamento.
Ou seja, eram os gravadores portáteis marca
Sony com microfone com extensão de fio de
aproximadamente metro e meio, não mais.
00:15:30 -
Não era mais do que isso.
Que tinham, a proteger, em vez de uma esponja,
uma rede metálica fechada, formato USM 58,
que é o formato dos microfones que aparecem
em todo o tipo de….
Tem uma grelha, mas a grelha é a si sobreposta.
Aquela não era.
Uma chapinha com os orifícios, para quê:
proteger as intensidades sonoras, o efeito
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de proximidade para não distorcer a membrana
do microfone, evitar os chamados [vox]POPs.
Mas o problema não era só esse: era preciso
conhecer o gravador, o microfone, a utilização
do microfone, a cassete, a duração do tempo
das pilhas, carregar as pilhas, a utilização
dinâmica do aparelho de medida – que tinha
YLC que é um automático que controla o nivelamento,
na posição ALC a modelação ficava controlada
automaticamente, não passava do pico, já
devidamente controlado e, se não estivesse
controlado, das duas uma: o sinal era muito
00:16:40 -
fraco porque o microfone precisava que o potencial
fosse regulado e se ensaiasse “1,2,3,4,5,6,
estamos em direto” e ver se modelação
era q.b.
Fosse q.b., o ideal, se estava ensaiado, podemos
então ligar o YLC, o controlo automático
de nível e então, aí, ficava-se garantido.
Mas isto pressuponha várias coisas.
Era importante, se fosses para exterior, levar
pilhas.
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Porque, senão, saber o tempo de duração
de uma cassete: se a cassete fosse C30, é
30 minutos de um lado, 30 do outro.
Se fosse C60, é…
FSS: Duas horas.
RR: Duas horas.
C90, 45 minutos em cada lado.
No mesmo espaço da mesma cassete, tens mais
duração ou menos duração de tempo em função
00:17:31 -
da espessura da fita.
E, quanto mais fina é a fita, mais tempo
tens, menos resistência à durabilidade – ou
seja, às tensões – ela tem.
Logo, dura-te menos tempo.
Pára, stop, arranca: a fita é muito fina,
deteriora-se, estica e perde-se a…
FSS: É que isso, sendo básico, não era
praticado.
00:17:56 -
E há um momento de transformação na rádio:
coincide com essa formação.
Até então, os jornalistas, quando, os ex-redatores/locutores
— que iam começar a ser jornalistas – iam,
sei lá, ao Palácio de Belém, audiências
aos partidos políticos, eles iam para contarem
em voz.
Mas ia sempre uma carrinha Peugeot 404…
RR: Um técnico.
FSS: O técnico tratava do som e o jornalista
podia estar de mãos nos bolsos ou com uma
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caneta.
E, a partir daí, o jornalista passou a ser
também…
RR: Tripé de microfone.
FSS: É uma mudança até na organização
profissional da casa.
RR: Gera economia de pessoal.
Gera independência do jornalista.
00:18:40 -
Gera competências para os jornalistas que,
ainda hoje: por exemplo, em televisão, com
um simples telefone moderno tu gravas, editas
e transmites, não é?.

Tens o Skype ou programas que transmitem em
direto.
FSS: Mas esse, portanto, é um momento determinante
na vida da rádio.
RR: Fulcral.
Mas vem de fora.
00:19:01 -
E foi nessa altura que a RDP comprou havia
N….
Chegou a haver doze gravadores disponíveis
para, pelo menos, meia dúzia estarem no centro
de formação.
E vieram de todo o lado.
O José Manuel Portugal veio de Coimbra.
O que está hoje… jornalistas da TVI, que
não me lembro agora o nome, já…
00:19:26 -
FSS: José Alberto Carvalho?
RR: Não, o de TV, o outro… vem de lá debaixo
do Algarve outra colega que é… A Helena
Figueiras.
Vem dos Açores e da Madeira.
Vem toda a gente.
Porquê: porque são criadas normas, assim
eu posso dizer que criei essas normas – não
00:19:51 -
existiam.
Ou seja, o jornalista quando vai – jornalista
porque começa aqui, é extensível aos assistentes
de realização, realizadores e produtores.
Por exemplo, às vezes, autonomia.
O gravador existia nos armários da produção
ou dos jornalistas.
Estavam lá, era pertença deles, a sua manutenção
e controlo e utilização.
00:20:20 -
E dos jornalistas a mesma coisa.
Mas, por exemplo, aparecia alguém que dizia
“Podias ir gravar, tenho tempo”.
E houve pessoas não dotadas desta ação
de formação e que praticavam a chamada Burricada
das Lezírias: não tinham tido essa formação.
Conclusão: só podem utilizar o gravador
de reportagem todos aqueles que passam por
uma ação de formação ou tivessem passado.
00:20:46 -
Mais tarde vem acontecer com os realizadores:
ou seja, o realizador então é o extremo
poente… é ele que passa a trabalhar com
uma equipa.
FSS: A formação atingiu grau sofisticado.
Lembro-me de um momento, creio que em outubro
de 1983, numa formação com o SFPJ de Paris,
e que decorreu nas Amoreiras.
Em que, lembro-me do exercício que foi recomendado
conjuntamente pelo formador e por ti.
00:21:27 -
Os repórteres – doze formandos, eu era um
deles – foram para a 5 de outubro, para a
porta do Ministério da Educação – creio
que o ministro era o Sottomayor Cardia – e
a tarefa era contar a manifestação sem voz
do jornalista.
Só com a captação de som.
Portanto, era quase uma iniciação à sonoplastia:
captem os sons de modo a que a história seja
toda só em som.
00:21:55 -
Foi, na prática, uma…
RR: Façam a paisagem sonora.
Exato.
Manusear em função dos vários acontecimentos
e das intensidades sonoras, que todas elas
pactuem.
Ou seja, que realidade é aquela que pode
ser, mais tarde, definida?
É tão simples quanto isto.
00:22:20 -
Eu aprendi muito porque chamei, para nos ajudar…
Dei um nome a uma parte da ação “Sou uma
parte integrante dos sentidos”.
E convidei um cego, doutorado, Carlos Deodato,
estava à frente da Biblioteca Camões ali
na… ao cimo da Calçada do Combro.
E o fulano tinha um currículo espetacular.
Ficou cego aos dois anos depois de ter levado
um coice na cabeça.
00:22:51 -
Ele corria por entre os pinheiros, ele aprendeu
a andar de bicicleta e justificava tudo.
E foi ele que me ensinou pormenores, em Portugal,
que a maior parte das pessoas não sabiam.
E ainda hoje… Portugal é dos países – e
aqui a escola dos cegos, aqui em Campo de
Ourique -, é dos países onde o ensino aos
cegos evoluiu mais.
Permitimos o quê: a autonomia com a bengala
desdobrável.
Porque o cão, por si só, quando adoece,
não pode acompanhar o dono.
00:23:28 -
Mas alguns cães, hoje em dia, fazem escolhas
rigorosas e treinos.
Se o cão adoece ou morre, não há mais nada.
Mas o tamanho do cão, que normalmente é
um cão grandinho, pode intimidar as pessoas.
Portanto, não dá total autonomia ao invisual
porque há locais onde o cão podia não entrar.
Hoje em dia, é obrigatório, em todos os
lados.
E então, eu aprendi, a história da paisagem
sonora, da utilização do microfone: “Vão
00:24:00 -
lá fora ao Ministério da Educação, façam
a cobertura do acontecimento sem o uso da
palavra”.
O que quer dizer…
FSS: Usavas palavras de ordem como guia.
Lembro-me que era preciso encontrar alguém
que dissesse “Estamos aqui quase uns 5000”
para dar a ideia do tamanho.
RR: A intensidade sonora de 5000 é diferente
de cem.
00:24:19 -
Tinha aí, trouxe comigo, uma fotografia em
que estou à frente do Ministério de Educação;
também, um grupo de professores que vieram
de Almada, numa escola onde eu dava aulas,
também lá estive.
Aí trouxemos, em cima de uma carrinha de
caixa aberta, alunos de música – a tocar
bateria e por aí fora, saxofone.
Para chegar aonde: o cego, o pior período
para ele, é o dia.
00:24:49 -
É quando há mais ruído.
O melhor período é a noite, menos ruído.
O dia de vento é o pior dia porque desvia-lhe
a fonte sonora, não é?
O melhor dia é dias normais.
Ou seja, a bengala desdobrável dá uma autonomia
enorme ao cego.
Portanto, o cego consegue uma data de coisas.
00:25:07 -
E eu tenho aí, trouxe comigo e deixei com
a Filipa, um formando, que eu ajudei a formar,
já com tecnologias digitais lá no centro
de formação, em que ele aprende a fazer
a emissão, com CDs, microfones, totalmente
autónomo.
E eu ajudei, formei-o, pu-lo à prova em frente
de toda a gente.
E descrevo a razão de ser de tudo isso: ou
seja, as paisagens sonoras que vocês foram
para o Ministério da Educação fazer, é
aquilo que eu hoje em dia peço aos alunos
00:25:38 -
na primeira aula.
“Vão para fora, vocês não sabem nada
porque eu ainda não mostrei nada.
Quero que vocês me tragam em escrito”.
Pode ser de modo gravado, no telemóvel ou
computador.
O que ouvem?
Fechem-me os olhos e descrevam o que ouvem.
00:25:57 -
A ver se já sabem definir movimento, esquerda-direita,
distinguir entre o motor de uma mota e o de
carro de um Diesel, um carro de gasolina,
o tinoni das ambulâncias, dos bombeiros e
da Telepizza, se o avião tem barulho a levantar
ou a aterrar, se a vizinha chegou a casa e
anda de saltos altos lá em casa, o vizinho
é surdo tem a televisão muito alta.
Os reflexos condicionados: quando tocam à
porta, se tocarem a campainha, eu não vou
abrir o frigorífico.
00:26:29 -
Foi nessa altura que se dá a grande mudança,
para mim, o Giesbert traz essa coisa.
Depois, o Adelino Gomes continua – e tu, todos
vocês.
Tu [Francisco Sena Santos] és uma referência
dentro da área do jornalismo: o ritmo, a
leitura e as notícias.
Mas é preciso, depois, respondendo ainda
à pergunta da Filipa que é: dá-se mudança
porque as chefias têm que mudar ou têm que
fazer formação.
00:27:04 -
É nesta altura que os livros começam a sair
das gavetas, os manuais dos equipamentos começam
a ser copiados e traduzidos, que o Feliz – um
belíssimo técnico na área da música – traduz
um livro francês e é distribuído em fascículos.
Um livro inglês, não é francês.
Que é um livro de instruções tecnológicas,
de operações de som da BBC.
E ele traduziu aquilo em fascículos.
00:27:38 -
E era, depois, pronto, um belíssimo livro
para quem não sabia nada.
Porque nós éramos simples executantes de
funções limitadas.
Fora da minha profissão.
Estar no meu princípio, a controlar a dinâmica,
não sei mais nada.
Vim a descobrir, mais tarde, quando estou
no centro de formação, que ninguém sabia
nada sobre audiofrequência ou sabiam pouco.
00:28:07 -
Não quer dizer que não houvesse um ou outro.
Uns eram muito bons e outros….
Percebe, fora da sua profissão.
RR: A minha outra grande outra aprendizagem
é cá fora quando aprendo a trabalhar com
músicos, com pessoal do teatro, com pessoal
da publicidade, com a multipista – que é
um sistema de gravação que permite que eu
vá somando, acrescentando, os instrumentos
00:28:32 -
— primeiro o ritmo, depois a harmonia, depois
a melodia.
E isso abre as portas por aí fora.

Surge o digital: vantagem das vantagens, tenho
um display onde toda a informação me aparece.
O tempo, o remain – ou seja, quanto é que
falta -, quanto já gastei, o nome da música,
o nome da faixa… Eu posso programar ou reprogramar
um DAT, um ADAT, [Alesis Digital Audio Tape]
fazer uma lista, posso ouvir só o princípio
da música ou o fim, posso fazer um loop – ou
00:29:05 -
seja, pôr em repetição tempos de fita -, posso,
em gravadores, DAT – do digital audio tape.
O VHS, que todos conhecemos em casa, mas com
fitas para áudio tem de ter mais resistência,
menos tempo, menos durabilidade, menos tempo
de duração.
Ao passo que tu, para veres um vídeo, carregas
e pausas para veres noutras alturas.
E é quando aparece o formato: demorou seis
anos para que o formato do DAT fosse aceite
no Japão, na Europa e nos EUA.
00:30:00 -
Até se ter, porque só havia cassete e fitas,
não havia mais nada.
Aquele formato demorou seis anos.
FSS: Acabou por ser efêmero depois.
RR: Efêmero, mas ainda hoje, por aí fora….
Porquê: não é pela fita, hoje em dia, tudo
é tão efêmero.
Já nem o MiniDisc.
00:30:18 -
Mas depois ainda apareceu uma cassete digital,
muito boa, também efêmera.
O CD, hoje efêmero é.
FSS: Pois, está tudo no computador.
RR: Está na Nuvem.
O problema, hoje em dia, é esse.
FSS: Claro.
00:30:36 -
Eu tinha ideia que tu tinhas participado numa
gigantesca operação exterior, uma prolongada
visita do Papa, do João Paulo II, a Portugal.
Agora deste-me há bocadinho a chave: foi
o João Feliz com o João Dias.
Confundi-te, é outro mestre da rádio.
RR: A tal pergunta que eu fiz, quando me convidaram
para fazer formação, “Ó Rui, gostávamos
que fizesses formação”.
00:30:58 -
“Porque não este?”.
Foi o Feliz.
Disse o nome, mais dois.
O Feliz não queria, não tinha tempo para
isso, não tinha prática de ensino, por aí
fora…
De inglês e de música, ele sabia.
00:31:13 -
FSS: A minha memória dos mestres do som foram
vocês e confundi-me.
FS: Vamos voltar aqui às paisagens sonoras.
A elaboração de paisagens sonoras.
Segundo a nossa pesquisa, o Rui sonorizou
peças da literatura clássica, como Os Miseráveis
do Victor Hugo, o Oliver Twist do Charles
Dickens e A Selva do Ferreira de Castro, como
já tínhamos falado.
00:31:38 -
Como é que se preparavam essas emissões,
que meios eram necessários?
RR: Preparava e também se improvisava.
Eu lembro-me do célebre Ferreira de Castro.
Ele na altura…
FS: Isto foi na Emissora Nacional ou já RDP?
RR: Já RDP, exato.
Por folhetins, gravava-se dois episódios
em cada dia e por aí fora.
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00:32:03 -
Há falas que se mantêm os mesmos personagens,
mas, depois, há alguns que passam por lá,
fora.
Até podem ser os mesmos já com outras falas,
alteram ligeiramente a dicção, o tempo de
leitura.
Fazem até com o seu à vontade e grande profissionalismo,
outros personagens.
Quando digo improviso, na altura, é preciso,
o cair: ouvir-se o tombar de um corpo.
00:32:29 -
Lá, em São Marçal, tínhamos a tal areia,
a porta fingida, as campainhas, essas coisas
que o tal colega que tinha essa função – que
era um misto entre sonoplasta e operador – manuseava
e que nós, na altura, também uma ou duas
coisinhas manuseávamos.
Era preciso ouvir-se tombar um corpo.
Havíamos nós de atirarmo-nos para o chão.
Tínhamos lá, no sítio, um tronco de uma
árvore para aí de metro e meio, para aí
00:33:11 -
com 50cm de diâmetro.
Era um tronco a sério.
Aquele tronco, se o deixássemos cair, à
semelhança deste chão alcatifado, para nós
pudermos deslocar, para os nossos passos não
serem captados pelo microfone aquando da gravação.
Então, tivemos de agarrar em alcatifa, panos,
tudo aquilo que fosse macio.
Envolver esse tronco para quando ele caísse,
tivesse o peso correspondente a um corpo,
00:33:42 -
mas não a sonoridade de um tronco.
Um tronco em madeira… Ou seja, essa é uma
delas.
Outro exemplo: isto é, agora, vou falar e
eu aproveito para homenagear a seu dono.
Aprendi que, nunca tinha feito nem tal imagem
nunca tinha vindo, que era: todos nós aprendemos,
falei há bocadinho do fogo com o celofane,
gravar um som – por exemplo, um tiro a uma
velocidade; reproduzir a metade da velocidade,
um tiro passa a ser um tirão e uma vozinha
00:34:23 -
passa a ser um vozeirão.
Alteração de velocidade, alteração do
timbre que caracteriza.
E, então, faltava-nos o bater das asas de
um pássaro.
Não é fácil.
Veio-me a ideia, eu preciso de gravar um dia
o som de uma abelha para sonorizar.
Faço uma gravação para os liceus, em inglês,
seguindo as regras americanas: andei com o
00:34:59 -
professor Rui, dois anos a gravar.
Ensina nos colégios do inglês.
Precisava de um som de uma abelha.
E era Primavera ali, na parte exterior do
meu estúdio havia uma laranjeira florida.
Cá fora, vi as abelhas.
E eu tinha apanhado abelhas na minha infância:
é dobrar um lenço, apanhar, mas sem apertar.
00:35:30 -
Dentro de uma garrafa de plástico.
Mas a garrafa tinha uma ou duas gotinhas de
água.
As asas da abelha não deram.
E o som que eu consegui não foi aquele que
eu queria.
Um garrafão, mas tive que sacudir, limpar,
para não ter água nenhuma porque as asas
da abelha – pequeninas, das abelhas que vão
buscar o pólen para o fabrico do mel – e,
00:35:58 -
depois, entro lá para dentro.
Precisava que ela voasse.
Um garrafão de plástico tem mais ou menos
este tamanhinho.
Desde que não tivesse água, ela voava, voava.
Eu coloquei o microfone na boca do garrafão
e captei.
Escusado será dizer que passei a digital,
computador, depois fiz vários registos – a
00:36:22 -
abelha a bater no fundo do garrafão, a abelha
a voar, por aí fora… Para dizer: era preciso
bater asas de uma gaivota, de uma pomba, quando
as… Uma fita chega ao fim, a fita veio…
O veio de proteção e com o roulete arrasta
a fita, o núcleo debita para o recetor.
A fita chega ao fim e anda ali uns instantes
a bater na guia, na parte protetora.
Depois, com um bocadinho de reverberação,
é preciso depois… Maravilha, maravilha.
FS: Também sonorizou a Simplesmente Maria
[folhetim radiofónico que estreou em 1973].
00:37:25 -
RR: Mas isso foi o Carlos Fernandes.
Fiz uma ou outra parte, mas já era uma versão
que não era a novela.
Fiz muitos folhetins, gravei muito com a Odete
Saint-Maurice também.
Gravei com a Maria José Mauperrin, que tinha…
FS: Isso foi há imenso tempo.
RR: Já não está cá entre nós.
Ainda trabalhava no Quelhas e ela adorava
passar Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira
00:37:58 -
antes do 25 de abril.
E, às vezes, o Sérgio Godinho.
E eu, que estava no apoio à emissão, fazia-lhe
sinal.
Passaram-se tempos, acontece o 25 de abril,
e ela chega a realizadora – ainda não estava
nomeada, mas, depois, vai aos primeiros cursos.
Era uma mulher muito dinâmica.
00:38:26 -
FSS: Café Concerto, era o programa dela.
RR: Mas era na Comercial.
Então, a Maria José Mauperrin e, um dia,
vem ter comigo “Ruizinho querido, quero
gravar” … já não me lembro, os tais
autores proibidos antes do 25 de abril.
E ela veio ter comigo e vem gravar para São
Marçal à noite.
Ela nunca tinha gravado teatro, não era realizadora,
não era… tinha vontade, mas também os
00:38:58 -
textos escolhidos por ela também não tinham
grandes encenações, nem grandes representações.
Era mais….
Mais ditos.
Tinham era muito conteúdo dialético.
Ficava ali a polémica toda da política,
acima de tudo, e por aí fora.
E pronto, foi muito agradável essa noite.
00:39:23 -
Na sequência dessa noite, fui gravar com
a Maria José Mauperrin e aconteceu um fenómeno
do mais maravilhoso de uma chefia.
Eu guardo e conto isto muitas vezes.
Tinha um chefe chamado Manuel Pascoal.
Trabalhava simultaneamente, no Rádio Clube
Português, ele ainda é vivo.
Deve estar com 80 e muitos anos.
00:39:43 -
E era meu chefe lá em São Marçal, onde
eu trabalhava.
Eu tinha estado a fazer a manhã, vim trabalhar
cá fora à tarde e, à noite, fui para a
rádio, para São Marçal, gravar teatro com
a Maria José Mauperrin.
E quando desço, fechar as luzes – havia alguns
estúdios ocupados com as emissões em direto
para África, as Américas, Índia e não
sei quê – mas, a parte de gravação, fechava
eu.
00:40:15 -
E ao fechar, vou ver o que é que eu tinha
no mapa.
O chamado planning, para o dia seguinte.
A que horas tinha de entrar para gravar.
E vejo um subscrito interno que dizia “Para
Rui Remígio, de Manuel Pascoal: ‘Não se
preocupe com a sua hora de entrada amanhã
de manhã’”.
Epá, isto é, das coisas mais maravilhosas
que uma chefia pode ter em atenção.
00:40:44 -
Contei isto já milhares… a ele e à frente
dos meus colegas, porque nunca ninguém me
tinha feito isto.
Para mim, foi uma grande lição porque, para
quem ministra e dá aulas nas escolas, em
que qualquer ato, qualquer pequeno gesto pode
funcionar como pedagogia, pratiquem.
Pratiquem, pratiquem, ou seja, conhecer o
outro, mas aprendendo a respeitar.
Escusado será dizer que, no dia seguinte,
eu estava lá a horas.
00:41:11 -
Porque uma pessoa dessas só merecia isso.
E conto isto porque de facto, para mim, é
marcante.
Tive chefes que nem… “Rui Remígio vem
trabalhar de sandálias e calças de ganga?
Os pezinhos estão lavados, as unhas também”.
Aconteceram coisas destas, a seguir ao 25
de abril.