Daniel Filho

João Carlos Daniel Filho, mais conhecido como Daniel Filho, nasceu no Rio de Janeiro em 30 de setembro de 1937, filho único do ator e cantor catalão Juan Daniel e da atriz argentina María Irma López (conhecida como Mary Daniel). 

Filho de família circense, Daniel Filho cresceu no meio artístico e logo chamou a atenção pelos seus múltiplos talentos. Aos 15 anos, estreou profissionalmente no teatro de revista, em Porto Alegre. Trabalhou durante muitos anos neste gênero, tornando-se um dos principais nomes do teatro brasileiro. Nos anos 1960, começou uma carreira de sucesso na televisão e não seria exagero dizer que sua vida se confunde com a da história da televisão brasileira onde já trabalhou como ator, diretor, cineasta, produtor, roteirista, dublador, apresentador e diretor geral de teledramaturiga. 

Seu caminho na TV começou na TV Rio, em 1956, atuando como ator, diretor e produtor. Como ator, participou de programas de humor, como o “Chico Anysio Show”(1956-1962), e de novelas, como “Mulheres de Areia”(1963) e “A Muralha”(1968). Como diretor, realizou trabalhos de destaque, tal qual o programa “Times Square” (1960-1967), um dos mais populares da TV brasileira na década de 1960. Como produtor, esteve envolvido na criação de vários programas de sucesso, tais quais “O Mundo Mágico de Bobby”(1963-1965), “O Planeta dos Homens”(1964-1966), “Alô, Dorival!” (1965-1966) e “O Bem-Amado (1968)”. No início dos anos 1960 contracenou com Jece Valadão (1) em dois dos mais conhecidos filmes brasileiros desse período: Os Cafajestes (1962) e Boca de Ouro (1963). 

Em 1964 passou a trabalhar na TV Excelsior, onde continuou desempenhando diversas funções, principalmente as de ator, diretor e produtor. Entre seus trabalhos como ator na emissora, destacam-se A Grande Viagem (1965-1966), Rosa Rebelde (1969), Além da minissérie histórica A Cabana do Pai Tomás (2) (1969) e um programa de humor que foi um dos precursores dos programas humorísticos da TV brasileira: O Primeiro Baile (1970)(3). Nesse período, Daniel Filho também dirigiu alguns filmes como: Pobre Príncipe Encantado (1968), O Impossível Acontece (1968), A Cama ao Alcance de Todos (1969).

Em 1967, Daniel Filho foi convidado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni(4), para trabalhar na TV Globo, onde se consolidou como diretor e também como ator e produtor e executivo. Daniel foi um dos principais nomes da emissora nos seus primeiros anos, ajudando a consolidar o seu reconhecido padrão dramatúrgico de alta qualidade. Nesse ano ele foi contratado pela emissora para dirigir a novela “A Rainha Louca”, de Gloria Magadan, baseada na peça homônima de Nelson Rodrigues. 

Na Rede Globo,  dirigiu, produziu e trabalhou como ator em mais de 50 novelas e minisséries, como “A Rainha Louca”(1967), “O Casarão”(1968), “Malu Mulher (1979-1980)”, “Plantão de Polícia”(1987-1993), “Carga Pesada”(1981-2002), “A Grande Família” (1995-2014) e “Se Eu Fosse Você”(2006-2010).  Além dessas produções dirigiu programas de humor consagrados, como “A Praça da Alegria”(1978-1981 e 1983-1992), “Os Trapalhões” (1977-1992) e “Sai de Baixo” (1994-2002)(5). Como ator de novelas da Globo, destaque para “Selva de Pedra” (1972), “Que Rei Sou Eu” (1989), “A Justiceira” (1997) e “O Astro” (2011). 

Novelas de Sucesso

Foi na Globo que Daniel iniciou sua bem sucedida parceria com a escritora Janete Clair(6) – outro grande nome da teledramaturgia brasileira. Daniel Filho a convidou para ajudar a salvar a novela “Anastácia, a Mulher sem Destino” que não estava apresentando um desempenho satisfatório. Apesar de Janete Clair não ter evitado o fracasso de “Anastácia, a Mulher sem Destino”, a parceria com Daniel Filho que aconteceu a partir daí foi muito frutífera: juntos, eles escreveram e dirigiram grandes sucessos de audiência e crítica da teledramaturgia brasileira, contribuindo de maneira decisiva para a consolidação da Globo como líder de audiência no horário nobre. Dentre esses sucessos se destacam “Irmãos Coragem” (1970), “Selva de Pedra” (1972), “Pecado Capital” (1975) e “O Astro” (1977), consideradas clássicos da teledramaturgia brasileira. 

  • “Irmãos Coragem” foi o primeiro grande sucesso da Rede Globo, quebrando a hegemonia das novelas da Rede Tupi, dominantes à época. A novela foi exibida de 21 de julho de 1970 a 16 de maio de 1971, totalizando 254 capítulos. Além de Daniel Filho, a novela também foi dirigida por Milton Gonçalves e Reynaldo Boury. 
  • “Selva de Pedra” é considerada um dos maiores sucessos da história da televisão brasileira, sendo regravada em 1987. A primeira versão da novela foi exibida de 22 de agosto de 1972 a 27 de maio de 1973, totalizando 264 capítulos, sendo responsável por consolidar a Globo como líder de audiência no horário nobre. Além de Daniel Filho, a novela também foi dirigida por Walter Avancini.
  • “O Astro”, exibida pela primeira vez em 1977, foi outro grande sucesso de audiência e crítica, sendo regravada em 2011. A novela foi exibida pela primeira vez de 17 de julho de 1977 a 15 de março de 1978, totalizando 221 capítulos. Além de Daniel Filho, a novela também foi dirigida por Walter Avancini e Régis Cardoso. Em 2011, Daniel Filho também interpretou Salomão Hayalla, o pai de Herculano Quintanilha, no remake da novela.
  • “Pecado Capital”, originalmente exibida em 1975, sendo regravada em 1998, também contribuiu de maneira determinante para tornar a Rede Globo como líder de audiência no horário nobre. A novela foi exibida de 1º de junho de 1975 a 12 de março de 1976, totalizando 221 capítulos e foi dirigida por Daniel Filho, Walter Avancini e Régis Cardoso.

Séries Brasileiras de destaque

Daniel Filho também foi responsável por importantes séries brasileiras, como: “Malu Mulher” (1979-1980), “Plantão de Polícia” (1987-1993), “Carga Pesada” (1981-2002), “Confissões de Adolescente” (1994-1996).

  • “Malu Mulher” escrita por Manoel Carlos e dirigida por Daniel Filho foi um dos primeiros programas de televisão a retratar a mulher de forma independente e empoderada. A personagem Malu, interpretada por Regina Duarte, era uma mulher separada, que trabalhava e lutava por seus direitos. Ela representava uma nova realidade para as mulheres brasileiras, que estavam conquistando cada vez mais espaço na sociedade. Malu Mulher abordou temas importantes e polêmicos, como o divórcio, a pílula anticoncepcional e a virgindade. Esses temas eram tabus na época, e o programa ajudou a quebrar esses tabus e a abrir um debate sobre esses assuntos polêmicos.
  • “Plantão de Polícia” série policial escrita por Luiz Carlos Martins que mostrava o dia a dia de uma delegacia de polícia. O programa, que transmitia notícias e reportagens sobre crimes, investigações e operações policiais, foi um sucesso de público e crítica, sendo exibido por 20 anos e indicado a diversos prêmios, incluindo o Emmy Internacional de melhor programa jornalístico. Plantão de Polícia foi um dos primeiros programas de televisão a mostrar a realidade da violência no Brasil, abordando o tema da segurança pública de forma direta e objetiva. 
  • “Carga Pesada” série escrita por Luiz Carlos Martins que também foi dirigida por José Frazão, considerada um dos primeiros programas de televisão a retratar o trabalhador brasileiro de forma realista e humanizada. Carga Pesada foi um sucesso de público e crítica. O programa acompanhava o dia a dia de dois caminhoneiros, Pedro (Antônio Fagundes) e Bino (Stênio Garcia), e mostrava as dificuldades e desafios dessa profissão. Carga Pesada abordou temas importantes e polêmicos como a desigualdade social e a violência urbana. Esses temas eram tabus na época, e o programa ajudou a abrir um debate sobre esses assuntos. O programa foi exibido por 14 temporadas e foi indicado a diversos prêmios.
  • “A Grande Família” sitcom escrita por Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Max Nunes; que foi também dirigida por Guel Arraes. foi um dos programas de televisão mais longevos da história da televisão brasileira, com 14 temporadas exibidas entre 2001 e 2014. Isso significa que o programa esteve presente na vida de várias gerações brasileiras, e que se tornou parte da cultura popular do país. A série retratou a família brasileira de forma realista e divertida abordando temas importantes como a desigualdade social, a violência e a política, sempre de forma leve e descontraída. 
  • “Confissões de Adolescente” é uma série que marcou a infância e adolescência de muitas pessoas no Brasil por abordar, de forma leve e divertida, temas importantes sobre esse período da vida das mulheres. Foi exibida entre 22 de agosto de 1994 e 30 de novembro de 1996. Sucesso de crítica e público, a série foi indicada ao Emmy Internacional de melhor programa infanto-juvenil em 1995. A série teve um total de 49 episódios divididos em 3 temporadas. A primeira temporada foi produzida pela TV Cultura e as duas seguintes pela Band, com reprise posterior na própria Cultura. Além disso, essa série deu origem a um filme.

Filmes relevantes

Daniel Filho dirigiu mais de 40 filmes, incluindo comédias, dramas, romances e thrillers. Alguns de seus filmes mais conhecidos incluem:

  • “O Cangaceiro Trapalhão” (1983), uma comédia musical estrelada pelos Trapalhões (7).
  • “A Partilha” (2001); 
  • “Se Eu Fosse Você” (2006), uma comédia romântica estrelada por Tony Ramos e Gloria Pires.
  • “Chico Xavier” (2010), um drama biográfico sobre o médium Chico Xavier.
  • “Confissões de Adolescente” (2013) foi adaptada para o cinema, com direção de Daniel Filho e Cris D’Amato. O filme foi também um sucesso de público e crítica.
  • “Sai de Baixo – O Filme” (2019), uma comédia baseada na série de televisão de mesmo nome. 
  • “Boca de Ouro” (2019), uma clássica e consagrada história de Nelson Rodrigues,
  • “Medida Provisória” (2021), um thriller político estrelado por Lázaro Ramos e Taís Araújo.
  • “O Silêncio da Chuva” (2021), adaptação do livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Entre os principais prêmios recebidos por Daniel Filho se destacam: Prêmio Especial do Júri (2014) no Prêmio Guarani de Cinema Brasileiro em reconhecimento à sua carreira no cinema brasileiro, Prêmio Especial do Júri (2006) no Festival de Cinema Brasileiro de Miami e Troféu Extraordinário (2003) pela sua contribuição à televisão brasileira. Também ganhou o Kikito de Melhor Filme e de Melhor Direção no festival de Gramado com “A Partilha” (2001), Prêmio de Melhor Filme (Júri Popular) no Prêmio Guarani de Cinema Brasileiro pelo filme “A Dona da História” (2004) e o Prêmio de Melhor Filme (Júri Popular) no 5º. Prêmio Contigo do Cinema Nacional pelo filme “Chico Xavier” (2010).

Daniel Filho é casado com a cantora Olivia Byington desde 2012 e tem dois filhos, João Daniel e Carla Daniel, ambos atores.

(1) Jece Valadão, pseudônimo de Gecy Valadão, foi um ator, diretor e produtor brasileiro. Nascido em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, em 24 de julho de 1930, morreu em São Paulo, em 27 de novembro de 2006, aos 76 anos. Valadão começou sua carreira no teatro, em 1952, atuando em peças de autores consagrados, como Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna e Carlos Drummond de Andrade. Em 1957, Valadão estreou no cinema, no filme “O Grande Momento”. A partir daí, ele se tornou um dos atores mais populares do Brasil, atuando em mais de cem filmes, entre eles “Boca de Ouro” (1962), “Os Cafajestes” (1965), “Os Sete Gatinhos” (1967) e “O Cangaceiro” (1997). Valadão também se destacou na televisão, atuando em novelas como “Transas e Caretas” (1984), “O Dono do Mundo” (1991) e “Cidadão Brasileiro” (2006).

(2)A Cabana do Pai Tomás (1969): minissérie baseada no romance homônimo de Harriet Beecher Stowe, em que Daniel Filho dirigiu os primeiros capítulos.

(3) O programa foi criado por Daniel Filho e Paulo Mendes Campos e contou com um elenco de jovens atores que se tornariam astros da televisão brasileira, como Regina Duarte, Glória Menezes e Paulo Gracindo.

 (4)José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, conhecido como Boni, é um dos nomes mais respeitados da televisão brasileira. Ele foi um dos responsáveis por transformar a TV Globo na maior rede de televisão do Brasil e por levar a televisão brasileira ao mundo. Boni começou sua carreira na televisão em 1956, como produtor de programas na TV Record. Em 1967, foi contratado pela TV Globo, onde ocupou diversos cargos de direção, incluindo superintendente de Produção e Programação, diretor-geral e vice-presidente de Operações.

 (5)Daniel Filho dirigiu A Praça da Alegria por 14 anos, Os Trapalhões por 15 anos, e Sai de Baixo por 8 anos.

(6) Janete Clair, nome artístico de Janete Emmer Dias Gomes, foi uma célebre escritora brasileira, autora de folhetins para rádio e televisão. Nascida em Conquista, na Bahia, em 25 de abril de 1925, morreu no Rio de Janeiro, em 16 de novembro de 1983, aos 58 anos. Janete começou sua carreira como escritora de radionovelas, em 1952. Em 1962, estreou na televisão com a novela “Sangue e Areia”, que foi um grande sucesso. A partir daí, ela se tornou uma das mais importantes escritoras de telenovelas do Brasil, escrevendo sucessos como “O Pagador de Promessas” (1968), “O Bem-Amado” (1973), “Pecado Capital” (1975), “A Escrava Isaura” (1976), “O Astro” (1977), “Pecado Capital”(1975), “Roque Santeiro” (1985) e “Eu Prometo” (1983). Janete Clair era uma autora popular, com um talento especial para criar personagens e tramas que cativavam o público. Suas novelas eram marcadas por temas como amor, família, justiça e superação. Ela também foi uma pioneira na abordagem de temas sociais em suas novelas, como a questão racial em “O Pagador de Promessas” e a desigualdade social em “O Bem-Amado”.

(7) Os Trapalhões foram um grupo de comédia brasileiro, que estrelaram o programa homônimo, exibido inicialmente pela TV Tupi (1974–1976), e posteriormente pela Rede Globo (1977–1995), além de diversos filmes entre a década de 1960 e a década de 1990. O quarteto era formado por Renato Aragão, intérprete do cearense Didi Mocó, Dedé, “o galã da periferia”, Mussum, “o malandro do morro” e Zacarias, “o mineirinho ingênuo”. Os Trapalhões eram conhecidos por suas palhaçadas, gags e humor físico. Seus programas e filmes eram populares em todas as faixas etárias, e eles se tornaram um dos grupos cômicos mais bem-sucedidos do Brasil. O grupo encerrou suas atividades em 1995, após a morte de Zacarias. No entanto, eles continuam a ser um ícone da cultura brasileira, e seu legado é celebrado até hoje.

Entrevista por Graziela Mello Vianna, Nísio Teixeira e André Melo Mendes. Registado por Gilson Ferreira em novembro de 2023. Edição por Álic Andrada e pós-produção áudio por Paulo Barbosa.

Parte 1 de 3

00:00:09 – eu nasci na carreira; filho de artistas; Infância; circo; teatro de revista; fechamento dos casinos; desemprego; vida em Caxambu; Poços de Caldas; Hotel Quisisana; Hotel Quitandinha;
00:02:13 – renascimento do teatro de revista de bolso no Rio de Janeiro; Teatrinho do Jardel; Jardel Jércolis; família Boscoli; empresário brasileiro; Jardel Filho; fechamento dos casinos; Bibi Ferreira; família circense;
00:03:43 – família; volta para o teatro revista; compra do teatro pela família; pais artistas;
00:04:41 – família circense; malabares; trapézio; deslumbre pelo circo; ajudante de palhaço; números circenses; malabares e trapézio; vendia bala no circo; 1946; pais voltam para o teatro revista; ataque de um macaco do circo; trauma; início da carreira no teatro; criado em meio à vedetes; Virgínia Lane; estreia com 15 anos;
00:08:41 – ida para o Teatro Grande; ficava na coxia; maquinista; 15 anos de idade; 1952; Porto Alegre; entendeu-se como artista; bairro Méier; Cinema Méier; cinema poeira; Rio de Janeiro; Cinema Paraponto; Cinema Mais Forte; relação com o cinema na infância;
00:11:42 – temporada na Argentina; bilíngue espanhol/português; estudos na Argentina; estudo de literatura e história política do mundo aos 30 e poucos anos de idade; começo de carreira; teatro revista; comediante; ano de 1957
00:14:29 – Walter Pinto; Folies Bergère; Moulin Rouge; teatro vivo; teatro declamado; companhias fixas; Jaime Costa, Procópio Ferreira, ator; vida cultural intensa; Arlindo Costa; Heloísa Helena, atriz; TV Tupi do Rio de Janeiro;
00:16:46 – indicação de Heloísa Helena; dificuldades no início da carreira; proibição de trabalhar pelo juiz de menores aos 15 ou 16 anos apesar de pertencer `a uma família de teatro; peça de Carnaval montada para que Daniel Filho pudesse participar;
00:18:50 – teste para a TV Tupi; Heloísa Helena, atriz; diretor geral Mário Provenzano, comentador de futebol; Daniel Filho era espectador de Mário como “tele-vizinho” : a família não tinha aparelho televisor em casa , era um status ter um televisor, assistia no vizinho; teste solo em esquetes; indicação de Arlindo Costa para a peça “Maria Cachucha” de Joracy Camargo; Vitor Berbara; papel principal na peça “Maria Cachucha”; com Iracema de Alencar e Rodolfo Arena; morava em Copacabana na Moniz Pereira; decorava o texto percorrendo a Avenida Atlântica; tinha 20 anos de idade na época
00:22:28 – convite de Eva Todor para participar do programa Aventuras de Eva; imitação de J. Silvestre em “O céu é o limite”, programa; início da carreira na televisão; ; influência do rádio; rádio público; programas de auditório; seriados de aventura; Homem passáro; programa Incrível Fantástico, Extraordinário de Almirante; programa do Manoel Barcelos; Paulo Gracindo; César de Alencar; “Balança mas não cai”; programa de rádio da autoria de Max Nunes e Paulo Gracindo; Rádio Nacional do Rio de Janeiro; seriado O Anjo de Álvaro Aguiar; Deise Lúcia; rádio; relação rádio e TV; rádio e teatro revista foram a base da criação da TV brasileira; Helena Magalhães; Linda Gomes; Paulo Porto, Alberto Pérez; investimento de Bill Crosby na fita magnética da Ampex; rádio ao vivo;
00:27:16 – no Brasil, a primeira gravação de vídeo tape entre 1960 e 1961; grande produção cinematográfica norte americana já nos anos 50; Utilização do maquinário do cinema para a televisão nos Estados Unidos; programa com três câmeras de 35mm filmando simultaneamente; técnica que deu sobrevida à “I Love Lucy”, série de TV; filmar com som no Brasil era muito caro
00:29:39 – no Brasil, rádio e teatro revista; as radionovelas são adaptadas para a TV; primeira novela como ator em 1958 , exibida duas vezes por semana; televisão ao vivo entre 1957 e 1961; cada cidade tinha um emissora de TV local Rio de Janeiro; Belo Horizonte; Ronald Golias, Chico Anísio viajavam para as cidades para fazer os programas; TV Excelsior cria redes; dificuldade de trabalhar em um país continental como o Brasil; cada televisão tinha seu império por regiões; Chateaubriand cria a rede Diários Associados , mas em cada capital , cada emissora tinha o seu dono; João Calmon, no Rio de Janeiro; em São Paulo, a televisão pertencia a Edmundo Monteiro, ambas associadas , mas cada uma tinha sua tribo; TV Mineira; desempregado ao entrar para a TV; TV ao vivo; o objetivo era ser ator Paulo Max, ator assistente de Jacy Campos no Programa Câmera Um; olhar periférico; sexta à noite; hora do Mistério; Paulo Max deixa o programa; Daniel Filho passa a ser assistente de Jacy Campos; maneira de aprender a trabalhar com a TV; entender a lente; entender a câmera; aprender do ponto de vista do autor; importância para o ator; visão periférica sem olhar para a câmera; quatro anos de TV ao vivo (1957 a 1961); Lima Duarte; Fernanda Montenegro; Laura Cardoso; Hebe Camargo; TV ao vivo; ganharam experiência; o melhor da televisão é ao vivo, mesmo que seja gravado: a importância da participação do espectador; gosta de assistir esporte pela TV;
00:37:56 – “Sai de Baixo”, programa que foi uma ideia de Tatá (Luiz Gustavo, ator, na época operador de câmera); programa piloto foi pensado para públicos de São Paulo e Belo Horizonte, públicos médios brasileiros; classe média;” onde a classe mais alta entra e a classe mais baixa entende”; público geral da televisão; atores falando de forma televisiva, em um teatro; gravado em um teatro com a sonorização do teatro com altos falantes embaixo das cadeiras, para que o público conseguisse escutar; engenharia para o riso da plateia chegasse naturalmente ao palco/ câmeras; improviso dos atores; ensaio apenas um dia antes para a câmera; gravação feita duas vezes; inspirado pelo programa da Carol Burnet em Los Angeles (EUA); já era experiente na TV nessa época; herança do teatro revista;
00:40:38 – TV Pirata; herança também do teatro de revista; diferentes tipos de atores que multiplicam protótipos de personagens; Marisa Orth; primeira escalação de “Sai de Baixo”; Confissões de Adolescente, seriado realizado em filme; trabalha na série com Tatá (Luiz Gustavo); resiste ao tempo por ser em filme; escalação do Sai de Baixo apresentada primeiramente para Sílvio Santos; Fulvio Stefanini no lugar de Miguel Falabella; Marisa Orth; Cláudia Jimenez; Ronald Golias; Hebe Camargo (como Cassandra); proposta ainda sem título; time de atores com “escada”, “comediante”, espontaneidade de Hebe (que caía no riso) ; proposta recusada por Sílvio Santos; programa é apresentado à Rede Globo;
00:44:24 – Maurício Sherman; Teatro de Comédia; Teatro Imperatriz das Sedas; Alda Garrido; oportunidade de trabalhar com várias peças de Jayme Costa, de Dulcina de Morais; possibilidade de contracenar com Conchita de Morais, mãe de Dulcina, em uma peça do Silveira Sampaio; ganho de bagagem cultural; montagem de Tennessee Williams; montagem de Arthur Miller; participou de “A morte do caixeiro viajante” com Jayme Costa; prática televisiva; público do rádio; emissão da voz; pessoas com prática de rádio e de teatro; Paulo Gracindo; Mário Lago; Lourdes Maia;
00:45:45 – “O que eu mais gosto de fazer é estar no set”, de estar como diretor ou ator; “o que eu mais gosto de fazer é fazer’; Lima Duarte; Antônio Pedro; reencontro recente em um set de filmagens com Ruy Guerra; 62 anos depois da realização do filme Os Cafajestes; emoção intraduzível para os dois; volta a trabalhar como ator, dirigido pelo Ruy Guerra; exibição comentada por Ruy Guerra e Daniel Filho recente em um cinema do Rio de Janeiro; Ruy Guerra o ensinou muito a ser ator de cinema; importância fundamental para a sua carreira em 1961; Daniel Filho já tinha então experiência em TV;
00:48:05 – início da carreira; excursão pelo interior do Rio Grande do Sul; roteiros feitos na hora; teatro de revista pequeno, mambembe, com a família; volta para São Paulo; Walter D’Ávila, aprendizados, “envernizada” com o velho profissional; ida para a televisão; aprender com o outro; “Tudo o que eu aprendi, aprendi observando”; as informações foram chegando a partir da necessidade de saber mais, estudar mais; voltou aos estudos aos 30 e poucos anos, quando já era diretor geral das novelas; necessidade de saber mais da história política e da literatura; processo fruto de análise (psicanalítica); “Daniel, você sabe, mas não sabe dar nome às coisas, é preciso estudar para saber o que você sabe”; “não recomendo esse processo” (de aprender na observação, na prática, sem estudar); “não pode ser uma pessoa que exerça a função que eu exerço, sem ter esse estudo, sem se aprofundar”para definir caminhos; para saber como fazer uma peça do Arthur Miller, ou do Nelson Rodrigues, ou do Dias Gomes, ou do Lauro César Muniz; “eu aprendi feito um bom vira-lata, mas dizem que os vira-latas são mais espertos, né? (Risos)”.

Parte 2 de 3

00:00:15 – início da carreira; cachê regular; contratação e salário na TV Tupi; passou a morar sozinho aos 21 anos: “eu não fui expulso de casa, meus pais se expulsaram”; morava na rua Bartolomeu Mitre; “O Leblon ainda não era o Leblon” (onde moram hoje as classes mais favorecidas da cidade); era um bairro longe; a mãe pergunta se ele gostava do apartamento, entrega as chaves, as contas a pagar do mês e se muda com o marido, pai de Daniel Filho, para a cidade de Cabo Frio; passou a procurar colegas para morar junto; moraram com Daniel Filho um tempo juntos: Luis Carlos (Miele), Hugo Carvana e Roberto Maia;
00:02:28 – em 1959 passou a fazer dublagens de filmes e seriados estrangeiros; observava a técnica ; repetição de planos , traveling; dublagem de Os Intocáveis; estava escalado para dublar Elliot Ness; teve uma dor de garganta e Antonio Patinho ficou com a dublagem do personagem; com a voz rouca por causa da dor de garganta, passou a dublar o bandido Frank Nitti; o bandido entrava em todos os episódios; ficou cinco anos dublando o bandido; dublou Seven to Seven; dublou o Ben Casey, que fazia o papel de um médico;
00:04:30 – dez primeiros anos de carreira de artista são difíceis; recomeços constantes; fazia simultaneamente dublagem, TV Tupi, novela , teleteatros teatro e cinema; atuação; muitas vezes fez três programas diferentes no mesmo dia: uma novela à tarde, um programa de humor e o Câmera 1 à noite; gravava o programa às 9h e às 11h30 já estava no ar; passou a ganhar bem comparado ao que ganhava antes; dava para pagar as despesas do apartamento, junto com (Luís Carlos) Miele e Hugo Carvana; cada um fazendo o seu trabalho “se virando nas onze” , como se diz no esporte;
00:06:41 – salário decente na TV Excelsior; trabalha na TV Excelsior de 1963 a 1965; em algum momento, a Excelsior fica sem pagar; em 1965, vai para a TV Tupi, fica um ano e meio; em 1966, inicia contrato com a Globo;
00:07:20 – comediantes na TV Excelsior; Chico Anysio; Manuel de Nóbrega, Carlos Manga vindos da rádio Mayrink (da Veiga) e Rádio Tupi; em São Paulo era a TV Record; no Rio, pertencia ao Amaral Peixoto, dono da TV Rio; Chico Anysio se aborreceu; Ricardo Amaral ligado ao (Mário Wallace) Simonsen convidou Chico Anysio para a TV Excelsior; toda a TV Rio foi contratada pela TV Excelsior em um único dia; “Walter Clark que era diretor da TV Rio, ficou a zero da noite pro dia”; Daniel Filho era casado naquela época com Dorinha Duval, uma das comediantes da TV Rio; somando todas as suas ocupações (dublagem, teatro, TV e cinema) Daniel Filho ganhava em torno de 70 mil cruzeiros por mês; Dorinha Duval tinha um programa com um quadro falando dos artistas; disco feito por Nilo Sérgio com uma gravação de uma música com voz acelerada; Dorinha Duval fez uma dublagem da música como se fosse um bonequinho no Noites de Gala; as pessoas gostaram e pediram para ela fazer novamente; Daniel Filho a ajudou a fazer, gravando o playback em 15 (RPM) e a sua própria voz em 7,5 (RPM), cantando lento, para quando voltasse para a rotação normal, a voz ficasse acelerada; Daniel Filho começa então a fazer alguns números para Dorinha, ainda na TV Rio, quando acontece a migração para TV Excelsior; ofereceram 150 mil cruzeiros mensais para Dorinha Duval na Excelsior;
00:11:07 – cachês na TV como dublador; Miguel Gustavo, autor de vários jingles e músicas conhecidos: autor da abertura do (Cassino do) Chacrinha; Daniel Filho cantarola o início da abertura : “Abelardo Barbosa…” ; samba cantado pelo Moreira da Silva “na subida do morro me contaram…” ; Miguel Gustavo convida Daniel Filho para a TV Excelsior pelo mesmo salário que sua esposa Dorinha Duval (150 mil cruzeiros aproximadamente); programas de humor; musicais no Rio; em São Paulo, a Excelsior compra ou aluga a Companhia Vera Cruz, onde passam a ser feitas as novelas; primeira novela diária “25(499)- Ocupado” com Tarcísio Meira (1963); TV Excelsior articula uma cadeia de TVs; assim os salários mais elevados se pagavam facilmente: paga-se uma vez e exibe no Brasil inteiro; Daniel Filho fazia na TV Tupi; viaja para Belo Horizonte para fazer o mesmo na TV Itacolomi; e o mesmo em São Paulo, na TV Paulista; ganhava um cachê por cada viagem; TV EXcelsior cria assim uma estrutura “maravilhosa”;
00:14:20 – programa Time Square na TV Excelsior; dupla com Dorinha Duval; grande sucesso no Brasil; tinham que ter segurança; era o galã em vários programas de humor; viu que estava “andando pra trás” só fazia dublagem e galãs;
00:16:32 – “a carreira é uma coisa complexa, que vai e que volta”; torna-se assistente de direção; Maurício Shermann , que já tinha ajudado Daniel Filho na TV Tupi quando era assistente do Jacy Campos, volta a ajudá-lo; atuou como o primeiro Visconde de Sabugosa (célebre personagem do Sítio do Pica Pau Amarelo, programa infantil de TV com várias versões em diversas épocas); era difícil; tinha que fazer capítulo ao vivo, tinha que decorar lições de conjugação de verbos, biologia, tudo decorado, ao vivo, porque o personagem sabia tudo; Chico Anysio se indispôs com a TV e vai morar em São Paulo; Chico Anysio o convida para a direção do Programa Chico Anysio, o principal da noite às 20h no domingo; Carlos Manga ri do convite; Daniel Filho assume a primeira direção de um grande programa; “eu sou diretor porque Dorinha Duval não sabia completar um quadro e porque Chico Anysio me disse, vem aqui, que você sabe me dirigir”; o programa Chico Anysio era no Teatro Cultura; TV Excelsior; diretor geral Edson Leite; o dinheiro aumentava a cada vez mais, “cada acertada de bola, o dinheiro dobrava”; “eu sabia que era passageiro”;
00:19:51 – atuação como diretor; questões políticas; enfrenta o regime militar já na Globo, nas novelas; ascensão profissional; falta de cursos profissionalizantes de dramaturgia ou cinema no Brasil; teatro dos Estudantes; suas origens no teatro popular, que não era muito considerado; recentemente viu um teatro de revista em Portugal e era muito bom; era grande e respeitosa companhia de teatro português; uma portuguesa fez uma nordestina sem sotaque; o teatro de revista não acabou em Portugal; no Brasil, acabou pela invasão da televisão; as vedetes foram para TV; Virginia Lane foi fazer um coelhinho que contava história infantil; uma grave dicotomia; a TV absorve os comediantes do teatro revista e da rádio; alguns não deram certo na TV, como o Oscarito; Walter d’Avila; fez muito teatro de revista antes de ir para a televisão;
00:23:56 – aprendizado na prática, sem saber que estava aprendendo; gravação na sede do Santos do programa Chico Anysio; Esquete brasileiro; Gilmar; Pelé; Pepe; Zito; Chico Anysio; Gravação na sede do Santos (time de futebol); quando o caminhão chegou com os equipamentos, os jogadores tinham se esquecido da gravação; Pelé passa com seu carro Mercedes, de mão para fora do carro, em frente à casa de cada jogador para lembra-los da gravação do programa; Pelé se tornou um bom amigo; arquivos se perderam; não há nenhum registro do episódio;
00:26:45 – “a memória é para mim a coisa mais forte e mais emocionante que tem”; importância de criar memórias; Restaurante Fiorentina no Rio de Janeiro como ponto de encontro do show business da classe artística; assinaturas nas paredes dos artistas; Brigitte Bardot; Alberto Sordi ; Rita Hayworth; Carlos Machado; atores de comédia, pessoal da TV Rio; pessoal da TV Tupi; ali surgiam muitos convites, muitos negócios; (Raul Augusto Almeida) Solnado (de Portugal) também ia muito ali, ficaram amigos, eram bons colegas, uma “pessoa deliciosa”;
00:29:01 – primeiro filme em 1954; Colégio de Brotos ; era um estudante no filme, um figurante com fala; Oscarito; Cyll Farney; filme Fuzileiros do Amor com Mazzaropi e Therezinha Amayo, de quem viria a ser galã; filme colorido brasileiro na televisão Esse Rio que eu amo, texto de Millôr Fernandes (1961); adaptações de contos brasileiros; Daniel Filho faz um papel em um conto de Machado de Assis; Noite de Almirante; chanchadas; em filme (Eu sou o tal!) com Vagareza, é o vilão principal; papel principal no filme Esse Rio que eu amo, junto com Tonia Carrero; Jardel Filho; vários contos; Jece Valadão
00:31:12 – em 1962, sob direção do Ruy Guerra, faz o filme Os cafajestes; entra no bom patamar de ator; “a vida vem em ondas como mar”, oscilações da carreira; fez o filme Boca de Ouro, dirigido por Nelson Pereira dos Santos; “eu que saí de lá do circo, começo a entrar em uma outra turma”; importância da conversa de botequim, das conversas pessoalmente; contatos entre pessoas do meio, para discutir as dificuldades; o que estão fazendo, as vontades que temos de fazer; “quando o Arlindo me convidou para fazer uma peça, só aconteceu porque ele me viu, eu estava lá”; “a felicidade não bate à sua porta, você tem sair atento , ir à rua”;
00:33:36 – regime Militar no Brasil; TV Excelsior; “sabíamos que o Wally (Wallace) Simonsen era financiado pelo pai , dono da Pan Air, um grande empresário”; com a ditadura militar, a Pan Air foi fechada; nessa época, já tinha feito Os Cafajestes; já tinha filmes exibidos em Berlim; não era muito politizado; Nelson Pereira deu panfletos para Daniel Filho e Hugo Carvana para distribuir no alto da Câmara dos Deputados Estaduais do Rio de Janeiro; levou uma “porrada” na cabeça; posicionamento de esquerda; “É da alma do artista ser de esquerda”; “a gente não trabalha com o poder, a gente não trabalha com o rei”; “tem governo, nós somos contra”; tinha por perto pessoas politizadas como Nelson Pereira, Ruy Guerra, a turma da UNE , Oduvaldo Viana;
00:35:55 – golpe em 31 de março e 1º de abril de 1964; o general no Rio tomou o Forte dando um tapa no garoto sentinela; falta de informação; contente com o Comício dos Marinheiros; com João Goulart;
00:37:07 – saída da TV Excelsior; volta para a TV Tupi por um ano e meio; Walter Clark vai direto da TV Tupi para a Globo e convida o Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho); Boni o convida para ir para a Globo; naquele tempo, a Globo era uma estação que mal se via no Rio de Janeiro; a antena enviava um sinal que não chegava no subúrbio; chegava no Leblon, Jardim Botânico…; dúvidas sobre a zona de cobertura da Globo; era pequena; Boni o convida para dirigir a novela A Rainha Louca na Globo; já tinha feito como ator, nunca tinha dirigido; “foi aí que o Boni que me descobre. Boni diz ‘eu acho com o que você gosta de cinema , você pode me ajudar a melhorar a novela’ ”; experiência do teatro na televisão; direção do programa Chico Anysio; “eu não sou diretor, eu tenho boa memória. Ao ver uma cena, eu sei de quantas maneiras posso fazer aquilo, porque já vi aquele determinado clima em inúmeros filmes”; Boni gosta da direção; dirige a novela Sangue e Areia em 1967.

Parte 3 de 3

00:00:00 – Gloria Magadan, diretora geral das novelas; cubana, fugida de Cuba por causa do regime de Fidel Castro; Daniel Filho naquela época gostava de Fidel Castro; jantar de Daniel Filho e Regina Duarte com Fidel Castro; Glória Magadan “batia de frente” com o Boni ao tentar definir horário e duração da novela; como diretor geral artístico da TV Globo, Boni gostaria de dar o tom sobre isso; Walter Clark; novelas patrocinadas e comandadas por agências de publicidade, como no rádio; mesma situação na TV Tupi; primeira novela que fez na Globo – teatro de novelas Coty; Espetáculos Tonelux; “era tudo anúncio”; “para Walter Clark, a programação mandava no comercial e não o comercial mandava na programação”; até hoje, o comercial manda um pouco no programa; Glória Magadan era então uma atrapalhada ali na história; Janete Clair liga para Daniel Filho; ele gostava muito da Janete e do Dias (Gomes); eu trouxe Janete Clair para a TV Globo; “ela era uma noveleira de rádio”; autores importantes de novela; Janete Clair; Ivani Ribeiro; o autor da novela Redenção (Raimundo Lopes); Benedito Ruy Barbosa trabalha para uma agência escrevendo novela; escreveu Pedacinho de Chão; tirar a Glória Magadan, seria importante pro Boni; Daniel Filho passa a ser então o diretor geral; a TV Globo transmitia na época três novelas diárias simultaneamente;
00:05:09 – “tenho na cabeça o ritmo que a cena vai ter”; os espetáculos teledramatúrgicos ou dramatúrgicos são para Daniel Filho como um concerto; apresentação no início, a introdução; o primeiro adágio…; um filme deve ter essa formação musical de uma música de um concerto; de uma ópera; “mas, na novela eu tenho que ter a noção do equilíbrio entre as cenas , uma pode ser mais lenta , outra mais brilhante; uma cena pode ser “como um rock” e a seguinte como uma bossa”; “como o capítulo de novela é um todo, eu tenho que dar um certo ritmo que vai ser aquele capítulo como um todo”; “então, no final, a gente sabe que sempre tem que vir um crescendo e uma cortada” (Daniel Filho gesticula então como um regente de uma orquestra, simulando a estrutura rítmica que acaba de mencionar); pensamento musical; já em um filme , em que se passa mais de um mês rodando, “uma ceninha, é praticamente três notas de um concerto’; “pra você não ficar com aqueles filmes…” (gesticula dando a entender filmes com o ritmo quebrado); unidade entre as sequências de cenas; Daniel cita uma sequência de músicas para exemplificar um ritmo fluido em um filme: “Valsa de uma cidade”; “Ela é carioca”; “Eu sou o samba”; as músicas que inspiram os ritmos das cenas geralmente não entraram como trilha sonora das produções; exceção em uma cena da novela Pecado Capital : Lima Duarte contracenava com Betty Faria e tem um impacto; nesse momento, ele pensou no verso El dia que me quieras… ; a música sugere que “o velho vai atacar essa moça”; nessa cena então, a trilha imaginada para esse encontro do casal romântico Lima Duarte e Betty Farias entra na novela; o contraponto do Lima Duarte nessa novela era o Francisco Cuoco; a música então serve para dar uma força no Lima (Duarte);
00:09:05 Paulinho do Viola compõe um samba para a abertura; aberturas de novela não utilizavam samba naquela época; censura; pedido para deixar de ser diretor-geral, “que me tirava de onde eu mais gosto de estar, no set”; cansaço do “trabalho de escritório”; “muito poderoso, muito bom, ganha uma boa grana, mas é chato”; “a gente gosta é de jogar, se a gente pode jogar, não me deixa lá só de técnico, eu vou lá fazer esse gol!”;
00:10:01 – saiu da Direção Geral (da Central de Produções da TV Globo); foi dirigir a novela Roque Santeiro; várias lutas com a censura; idas a cada 15 dias à Brasília para discutir com a censura; “não sofri tanto como as pessoas que foram presas, como as pessoas que perderam filhos, amigos… mas o que eu pereci com a censura, era um absurdo”; Daniel Filho era um problema para a censura militar; Dias Gomes não ia junto com Daniel Filho para Brasília, quem ia às vezes era Janete Clair; “o Dias (Gomes) e o Lauro César Muniz eram esquentados, se eles fossem, todos seríamos presos”; às vezes , ele mesmo se exaltava; novela do Vicente Sesso com Zilka Salaberry e Suzana Vieira ; censura na cena final de um capítulo da novela por causa de um olhar; a censura militar ordenou o corte do close da atriz Zilka Salaberry por inferências sobre o que a personagem estaria pensando com aquele olhar sobre a outra personagem; “então , foi cortado o pensamento!”; muito difícil a censura;
00:13:02 – Roque Santeiro; prazer de voltar à direção das novelas; Lima Duarte; o elenco era brilhante; existem capítulos gravados do Roque Santeiro original; Betty Faria, que era casada com Daniel Filho na época, fazia o papel da viúva Porcina; o Lima (Duarte); no dia da estreia, a novela foi proibida; Daniel Filho não sabia porque tinha sido proibida; ele desceu da sala da direção para falar com o elenco; “eu senti que o nosso trabalho era nada”; “ nós somos absolutamente dispensáveis”; “foi muito duro naquele dia”; praticamente 36 capítulos já gravados; 10 capítulos já montados; “era boa a novela”; “isso aí foi um terror pra gente”; Daniel Filho e Boni se abraçaram e choraram copiosamente; a interrupção das possibilidades da novela brasileira que vinha em ascensão; grande trabalho de pesquisa sobre a crendice brasileira, sobre milagres, estudo da Igreja; “Roque Santeiro era uma obra prima da utilização da crendice e da pobreza brasileira” ;
00:15:44 – “a gênia”da Janete Clair se dispôs a escrever outra novela para o elenco escalado para Roque Santeiro; novela Pecado Capital; história passada no Rio de Janeiro, duas operárias da tecelaria; chofer de taxi encontra uma mala com muito dinheiro, valor correspondente a um prêmio da Loteria Esportiva; leu o roteiro junto com a Betty (Faria), com quem era casado na época; ainda sem saber porque a novela Roque Santeiro tinha sido proibida apesar da experiência da equipe com a censura; Betty (Faria) disse “esse papel não é pra mim”; é para alguém mais doce, Regina Duarte; pensou então em transformar a novela em algo mais próximo do público; o (Francisco) Cuoco não poderia ser o galã tradicional; um chofer de taxi que tem um pai estivador que precisa fazer uma cirurgia; Cuoco teve que ganhar barriga, deixar uma costeleta, um bigodinho, usar guias (colares utilizados por praticantes de umbanda ou candomblé) para se tornar chofer de taxi brasileiro, que briga, tem suor; Cuoco se torna o par romântico de Betty (Faria) que tem o tipo da malandra; estrutura mais suingada; samba; Guto (Graça Melo) sugeriu uma música de abertura regional; samba; Paulinho da Viola compôs o samba chamado Pecado Capital em 24h; tinha receio que Boni não topasse;
00:20:55 – foi convidado para ir à Cuba pelo governo graças ao programa Malu Mulher; Confissões de Adolescente também lhe deu uma projeção mundial; novelas; Sônia Braga; Betty Faria; todos atores brasileiros foram aclamados em Portugal; teve a ousadia de fazer a produção da série O primo Basílio adaptado por Gilberto Braga; Eça de Queiroz; foi recebido em Portugal por especialistas das obras de Eça de Queiroz; grandes escritores portugueses Eça de Queiroz; Fernando Pessoa;
00:22:59 – novelas e reality shows atuais; não gostaria de falar pois seria como um crítico; não está envolvido nas produções atuais; pasteurização da novela; todo mundo fazendo a mesma coisa; franquia dos reality shows em diversos países; EUA: Itália; perda de identidade; deixa de ser brasileiro; country music já é de outro lugar; nada contra a música sertaneja; mas não sou especialista nisso;
00:24:43 – streaming; inteligência artificial; algo muito difícil (fazer novela para streaming) quando era diretor geral (da Central Globo de Produções), tentou fazer uma novela para ser veiculada em um período posterior para não ter problema com a Censura, para não ser surpreendido novamente; pediu para pessoas muito experientes para gravar uma novela inteira; Herval Rossano; novela Salomé; 110 capítulos; uma novela inteira pronta para ser exibida depois, caso acontecesse alguma coisa; novela deve ser feita junto com o público; como Dostoiévski fazia, publicando aos poucos nos jornais; tempo em que vai sentindo a reação da plateia e vai alterando a novela; “o público neste tipo de novela que a gente fazia, participava muito do que estava sendo feito”; sentia a reação; “às vezes uma dupla que a gente achava boa não colava”; várias nuances, várias “pedras” (personagens); “na novela antigamente, o mínimo de personagens que você tinha era 26; “atualmente estão jogando com 40 ou mais; Janet Clair chegou a jogar com mais, o que é mais difícil; diferença entre escrever e escalar: “aquilo que você escreveu ainda não tem uma voz e um corpo, ele passa a ter um corpo, uma voz, empatia”(na escalação de personagens); todos personagens de novela precisam se coordenar com outros, precisam ter uma função vocal com os outros; “eu preciso colocar um tipo de voz , com outro tipo de voz que melhore esse “coral”, um canto orfeônico” ; todas novelas geralmente eram alteradas em função da opinião do público;
00:27:47 – novela feita com o público; Janete Clair entregava uma sinopse inicial de 20 capítulos; estrutura da novela: 20 capítulos, depois virada, no meio a chamada “barriga”; semelhante ao cinema; divisão em atos; os filmes normalmente tem introdução, três atos, final; os filmes de aventura, Homem Aranha, Star Trek passaram a ter os atos divididos em quadros de 10 minutos; tem toda uma medida; a novela tem a mesma estrutura de atos, de maneiras de contar; a criação ocorre dentro desta margem; assim como se escreve para um jornal , sabe-se que deve escrever quatro laudas ou 10 papeis escritos à mão; “se você escreve um artigo por semana, você sabe exatamente quantas linhas tem que escrever, o jeito que tem que escrever, e aí você divide a história que você quer contar”; tudo isso faz parte da dramaturgia; “tem gente que sabe escrever muito bem, mas escrever 80 capítulos, 120 capítulos é muita coisa”; como um grande livro; depois de escrito, às vezes o ator não “cola” no papel, não funciona no papel escolhido para ele, apesar de ser bom ator; “muitas vezes você está envolvido (na direção) e não vê”; em algumas novelas, teve que tirar o ator quando começou a gravar; Bruna Lombardi e Tarcísio Meira na novela Roda de Fogo; Daniel Filho achava que duas pessoas tão bonitas e tão “tesudas” no ar daria certo; na primeira cena gravada com o par romântico, uma cena de beijo , ele teve a confirmação de que estava certo; muitas variáveis, “é como um namoro”; só era possível saber que daria certo, vendo;
00:32:18 – novelas atuais; seriados americanos são gravados (antecipadamente), mas deixam algo para fazer depois; atores gravam ser saber como serão os últimos capítulos; a direção não pode esquecer que trabalha para a plateia, para o público; é o público que comanda, como no teatro; duas sessões nunca são iguais no teatro, a reação do público é diferente; o público muda e o espetáculo também; os atores têm a experiência necessária para sentir durante o espetáculo que não está funcionando e aceleram mais ou exploram mais a cena, em função do público;
00:33:40 – algorítmos não pensam como a gente; Inteligência Artificial; Frank Sinatra cantando Billy Jean do Michael Jackson; percebeu que a voz era igualao do Frank Sinatra; uma orquestração semelhante ao que Quincy Jones ou Nelson Riddle, mas não era o Frank Sinatra; dublagem com a voz do próprio ator; todas as línguas têm situações, palavras e pontuações diferentes; “se Marlon Brando falasse aquilo em francês seria uma pontuação, se falasse em alemão , se falasse em sueco, seria uma outra pontuação”; “acho que a inteligência artificial ainda não cria uma interpretação que nos surpreenda”; o artista surpreende; “isto é que funciona quando assistimos a um espetáculo”; “não sou contra a inteligência artificial, para interpretar personagens estereotipados” (Daniel Filho imita a voz de um herói de seriado de aventura); “mas, para um personagem com mais nuances , é preciso ter outra inflexão”;
00:36:34 – “eu gostaria de continuar trabalhando” é tudo que eu quero; dirigiu há cerca de três anos antes filmes Boca de ouro e O Silêncio da Chuva; trabalho; “a única coisa que eu sei fazer é trabalhar, é estar no set”; a produção audiovisual está difícil; “não escolhi muito o que eu fui fazendo na vida”; “fico maravilhado que mesmo aos 80 anos tenha conseguido dirigir esses filmes”; ganhou prêmios como diretor; o deixou muito contente; “eu ficava preocupado, a gente pode estar superado”; Fernanda Montenegro, 94 anos; “cada vez que eu ligo pra ela ela diz: estou aqui ainda”; “a cabeça dela está perfeita, ótima”; Fernanda Montenegro lhe diz: “Daniel, se eu um dia ficar paralítica, assim na cama, sem poder me mexer, você põe um microfone perto da minha boca que eu vou dizer alguma coisa” ; “ fico feliz se eu puder ensinar o povo, falar com pesquisadores, falar das possibilidades da criação”; “eu gostaria tanto que as pessoas soubessem que sem passado não tem futuro, o que eu puder deixar de algum ensinamento, de algum saber, eu gosto muito”; gosta do que faz; estava parado naquele momento, aguardando os recursos para produzir; mas confia que vão chegar; filmar e valorizar a cultura brasileira; sem perder a personalidade brasileira; a pasteurização atual das novelas e realities shows; “vamos falar da nossa vila”.