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Arquivo de Memória Oral das Profissões da Comunicação

António Luiz Rafael 9 de 15

Entrevistado por Júlia Leitão de Barros * Registado por Paulo Barbosa * Évora 27 de Março de 2017

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— Quer dizer, há pessoas que levam estas minhas opiniões também por este aspecto: este gajo, este gajo é velho, este gajo é do outro tempo. E é partidário do que: o que era antigamente é que era bom.
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— Não, não é, não tem a ver com isso.
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— Não, já se fizeram coisas muito boas, que depois se estão a fazer as coisas muito mal. Eu na rádio de hoje não me revejo. Na a rádio ainda tem particularidades mais estranhas. Primeiro, já ninguém é admitido, aliás a televisão também se pode tocar nesse aspecto, também lhe posso dizer. Quer dizer, olhe, na televisão, telenovelas. Eu sou do tempo, em que qualquer pessoa para dar a cara num palco, ou numa, num ecrã de televisão, tinha que ter uma carteira profissional, tinha que ser ator, tinha que ir ao conservatório. Hoje, tirando duas ou três estrelas, que são os, são os, os gajos que conseguem suster uma certa qualidade no produto, o que é que é o resto que faz a interpretação nas telenovelas? As modelos, ex…gajos que são muito bonitos, outros, outros que são maricas e tá na moda ser maricas, e não sei o quê, e mais não sei quantos e mais não sei quê. E a gente olha pra aquilo e vê interpretações miseráveis. E depois vem a saber que ninguém passou pelo con… conservatório. Na rádio, onde é que se fazem concursos hoje para admitir locutores de rádio? A gente até diz por graça, olhe, desculpe, boa tarde, isto é pra rádio: que horas são? Ah, são 8 e 15. Olha, o Sr. tem uma boa voz, gostei muito dessa sua pergunta das horas. Não quer fazer uma “locuçãozita”? Porque hoje, todo o arrivista…porquê?, são os, são, são os blocos, são, são os apoios, este ajuda aquele, mete o outro, não sei quê. Só[ imperceptível] o Isidro não, porque… mas…o Isidro tá a piorar, tá a ficar vaidoso, tá a ficar… figura nacional, não sei quê, mas esses Markls, os Alvins e não sei quê…Eh pá, os programas da manhã, com, com quatro locutores, cinco locutores, passam a vida a rir-se, a dizer umas piadas. Cá fora a gente não percebe de que é que eles se estão a rir. E depois têm mania de dizer tudo em inglês. Temos aqui um disco dos não sei quantos, que aqui há tempos cantaram What to say, que foi um grande êxito, superior ao [ imperceptível]. Mas o que é isto? O Zé Maria que está ali na aldeia e não sei quê .. : o que é que estes gajos estão a dizer?
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— Então acha que a informalidade é uma coisa…
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— Não, eu acho que um locutor, um locutor, para além da tendência que tenha de gostar da profissão, eu gostaria de falar ao microfone, e sinto que há qualquer coisa dentro que me impele para essa actividade, pode ir depois às provas e ser uma nulidade, falar mal dizer… agora toda gente diz “tá bem” e, eh pá. Ah, e agora há uma coisa, uma coisa muito moderna que eu vejo aí nos canais da televisão, que é o “a”, o artigo a antes da palavra. É um exemplo: O a Benfica, vai hoje no a Estádio da Luz, dafrontar o a equipe do Bayern de Munique.
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— Mas isso é vulgaríssimo hoje, ainda não, não deu por essa?.
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— Pois.
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— Então ligue por exemplo pra a Bola TV. Olhe, e se, se quer ficar irritada ficar irritada, ao ponto de quase vontade partir a televisão, é ver a CMTV, ou ler o jornal, é a mesma coisa…se, se…anda por aí Mas..um fulano que tem obrigação de comunicar com pessoas cá fora, tem que ter o mínimo de cultura, não precisa de ser nenhum doutorado, tem o mínimo de saber um pouco que…é assim uma espécie dumas enciclopédias ambulantes, mas que são, são bengalas úteis pra, pra, pra vida. Então faça umas “provazinhas”, mostre que tem boa voz, mostre… seja humilde, comece por fazer trabalhos mínimos, pra depois, vai mostrando a sua qualidade e vai subindo. Não é entrar na rádio e ser logo o mandachuva, ir logo fazer o programa da manhã, ou coiso e não sei quê… Depois há o exagero do tamanho dos programas, quatro horas, cinco horas, sempre as mesmas vozes, mesmas vozes. Os tipos às vezes já não sabem o que hão-de dizer, as piadas são gastas. Então aquilo acaba tudo numa palhaçada…De maneira que…meu amigo lamento muito, mas a rádio pra mim hoje não me diz nada. Nem oiço. Oiço a Antena 2.
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— E os programas de televisão também têm essa informalidade?
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— Também começo a não me rever na televisão.
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— Aliás, outro dia li uma coisa curiosa a dizer que a televisão, tal como hoje a conhecemos, está agonizante. A malta hoje está-se a virar para os computadores, e os computadores para os Netflix e para os não sei quantos e não sei quê. As, os gostos estão a começar a mudar. A televisão já não é, já não é catalizador como era.

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