Entrevistado por Júlia Leitão de Barros * Registado por Paulo Barbosa * Évora 27 de Março de 2017
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— Daquilo que me tá a dizer agora, no fundo, quando vai para a televisão, de alguma maneira, também passou a ser jornalista, mesmo.
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— Sim. Sim.
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— Agora de, de… Pronto. E portanto ia lhe perguntar a sua relação
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— Ainda tenho a carteira de jornalista e ainda sou sócio do sindicato.
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— Exactamente. Ia- lhe perguntar. Fez parte do sindicato? Em actividades…
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— Não, não, não, nunca fiz.
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— Não? Nem teve ligações…
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— É há outra coisa que há bocado me esqueci de lhe dizer quando estava a falar da rádio: nunca li anúncios.
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— Ah, não?
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— Negava-me.
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— Pois, tinha me esquecido disso.
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— Negava-me.
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— A sério? Mas logo desde os anos 50
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— Desde o princípio nunca li anúncios. O João Maria Tudela, que em Lourenço Marques era director comercial da Shell,
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— Sim.
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— Um dia chegou ao pé de mim e disse assim: “Oh Rafael, a Shell quer fazer um anúncio de prestígio pra rádio, e quer que seja a tua voz.” Eu disse:não faço. Eu não faço publicidade. Isso do coma, beba, chupe, vá, vista, dispa,…
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— E a Shell era uma grande multinacional, não é?
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— Eh, pá, mas quanto é que tu queres pra fazer isso?
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— Eh, pá sei lá, a Shell, naturalmente, se eu, se eu fosse preciso… Olhe, imagine, a doutora, que eu podia, nessa altura, talvez, sei lá, anúncios de 30 segundos, um anúncio de 30 segundos, o Rádio Clube não aceitava anúncios com mais de 30 segundos. 15, 30. Não aceitava mais. E não transmitia mais que 7 anúncios de cada vez.
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— Ah sim.
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— Não é como à SIC, que começa o telejornal às 8 horas, às 8 e 10 pára o telejornal, dá 25 minutos de anúncios, dos quais 30 é de, de, a falar das novelas e depois a seguir é…e depois a seguir já não há mais telejornal, porque não têm mais notícias. Depois entra na coisa mais obtusa, mais irritante que eu vejo nas televisões portuguesas que é transformarem os telejornais em pacotes comerciais. Então a SIC ainda tem a mania de lhe acrescentar o exclusivo. É o disco que lançou, é o cantor que vai estrear, é o filme que vai estrear. [ imperceptível]dizer: pois, o filme estreia depois de amanhã, isto é propaganda ao filme. Esse disco é posto à venda amanhã. Isto é propaganda ao filme. Isso é publicidade paga. E um gajo aguenta a parte toda final do telejornal com isto. Bom, mas disse, mas disse ao João Maria Tudela:
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— Mas estava a falar que…
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— Imagine, não sei, pra esse tempo, 3 contos.
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— Pois.
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— Era uma fortuna.
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— Uma fortuna.
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— Fortuna não era, mas era muito dinheiro. Três contos me chateiam pá. O Rafael é parvo. O João Maria Tudela telefona-me: “a Shell diz que sim, paga”. Eh, pá, mas eu não gravo.
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— Mas era para gravar uma publicidade…
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— Era uma publicidade que depois ia se arrastar por meses.
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— Pois.
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— Meta gasolina, ou, ou compre o óleo, sei lá que é, que é que saía, não, nunca imaginei o que era o anúncio. Mas fosse o que fosse. Porque aqueles anúncios duravam muito tempo, não é?
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— Sim, sim, eram… pois… podiam ficar anos, aliás.
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— [ imperceptível] tem na televisão que já… se fosse preciso até íamos substituir porque sabemos o anúncio de cor, tantas vezes ele é transmitido, não é?
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— Pois, claro.
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— Esse gajo que anda a fazer [ imperceptível]no comboio e não sei quê.
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— Mas de qualquer maneira, nunca fez parte de nenhuma… fez parte…
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— Não, nunca fiz , nunca fiz parte.
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— Sindicalizou-se de qualquer maneira, não é?
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— Ah sindicalizar… mas não era obrigatório. Mas não era obrigatório. Não era obrigatório.
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— E então fê-lo por quê?
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— Fi-lo porque achei que devia fazer, talvez porque tinha protecção jurídica.
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— E outras protecções, não é? Saúde também?
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— Tinha proteção jurídica…
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— Vantagens várias, não é.
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— Não, não por idealismos… clássicos, e não sei quê. Não. Respeitando sempre embora os meus colegas, porque eu, sabe, eu, eu sou de um tempo em que, por exemplo, nos jornais, os jornalistas quando entravam… iam ter com os mais velhos. Tinham respeito por aquela gente, por um Baptista Bastos, um Mário Zambujal, tipos que são da imprensa antiga, do Século, do Diário de Notícias, do Diário de Lisboa, da República, jornalistas de qualidade. O jornalista novato ia pedir instruções como é que tem fazer. E o jornalista mais velho tinha gosto em ensinar. E os trabalhos que faziam ao princípio era um trabalho mínimo, bombeiros, hospitais, polícia. Era a agenda. Depois mandavam-lhe fazer um escritozinho, depois mandavam-lhe fazer um artiguinho, uma crónica, agora vai fazer….
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— Mas nunca, nunca passou pela imprensa escrita, de qualquer maneira…
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— Não. Não. Mas escrevi, sim, sim…aqui em Évora passei pela imprensa escrita.
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— Mas mais tarde.
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— Mais tarde, já depois de reformado.
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— Mas já…pois.
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— Depois de reformado. Trezentos e tal artigos.
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— Hoje em dia, peço desculpa porque a senhora é professora de Comunicação Social, e aquele senhor que venho a saber também que é. Hoje ti… hoje não é hoje, na actualidade, quando começaram estes cursos superiores de Comunicação Social, começamos a ser confrontados com pessoas novatas que entravam pró, pró, pró jornalismo, que iam para a RTP, nem que fosse naqueles, naqueles estágios… periódicos que se faziam, não é, estágio, aquilo tem um nome, estágio, curricular.
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— Curricular.
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— Eh, pá, não só desprezavam as pessoas velhas, como por vezes tinham desabafos em voz alta que aquele tipo é desa..é velho e desactualizado. Porque quando havia assim género: eh pá, se tem dúvidas pergunte àquele. Aquele? Aquele homem sabe muito menos que eu. Eu ando numa Escola Superior de Comunicação Social. E isso criou, ao princípio, uma certa virose contra os alunos de, de Comunicação Social. Porque grandes jornalistas deste país nunca passaram por escolas nenhumas de Comunicação Social. Escreviam como nunca… Oh doutora, Outro dia num canal de televisão, um pivô qualificado, quando a UNESCO qualific… classificou aqui Alcáçovas, fica aqui a trinta quilómetros, como a capital do chocalho, no telejornal, disse hoje Portugal voltou a ser alvo de uma distinção internacional. A UNESCO acaba de classificar, ha, os chocalhos de Alcaçovas. E esse, sei eu, tem um curso superior de Comunicação Social. Mas depois têm uma preocupação extrema de dizer: na Ucrânia, Encrenájekazadóceque. Ficaram muito felizes porque disseram…isto é um nome inventado…
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— Sim, eu estou a perceber… a ideia.
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— Está a perceber? Mas depois no português é asneiras que é de partir a rir
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— Eu se tivesse um bloco ao pé de mim, tinha aí dois ou três blocos cheios de calinadas dadas em telejornais, por pessoas que se eu dissesse o nome vocês até ficavam azuis.
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— Sim, mas…
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— Portanto, houve uma certa virose contra os alunos da Comunicação Social, por causa da sua estulticia, nós sabemos tudo, já aprendemos tudo, nós aprendemos semiótica, nós, nós não sei quantos, não sei quê, vocês são uns tipos desactualizados, isso agora já não é assim, pf. É certo que alguns, deram já, depois das primeiras levas, em bons jornalistas. Mas temos uma maioritária geração de, de jornalistas com Curso Superior de Comunicação Social que nunca serão por, por mim classificados como jornalistas. E a culpa não é das escolas, porque as escolas eu sei que ensinam bem… Eles é que não estão, não estão vocacionados para aquele trabalho. E digo-lhe uma coisa doutora…
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— O que é que é preciso pra esse trabalho?
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— É preciso ter gôsto, é preciso ter vocação.
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— Gôsto, gôsto.
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— É preciso ter gôsto e vocação.
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— E esse gôsto…
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— É como o locutor, o locutor não se inventa, ou se tem jeito ou não se tem jeito. Se não tem jeito então que vá vender, vender batatas. O tipo vai pra… Sabe que uma coisa que se passa que é muito curiosa? Eu às vezes inflamo-me um bocado com isso.
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— Não fale, não faz mal.
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— É perguntar, por exemplo, eu participei em imensas… sessões a posteriori de vir pró, pró centro de, pró centro de formação dar umas pequenas aulas. Eh, pá, você vá lá entretenha-se, entretenha-se com os catraios, você, por exemplo, pode explicar o telejornal como é, como é que se faz, não sei quê, para depois outros colegas irem lá explicar pormenores, e segredos, truques, não sei quê, aquelas coisas que há. A doutora quer saber, que nesses cursos de formação, de alguns estavam a fazer estágios curriculares vindo de escolas, e nós fazíamos uma pergunta clássica, todos nós perguntávamos e gozávamos com isto, mas ficávamos tristes: Você se um dia, fosse admitido pra televisão, para trabalhar na televisão, o que é que gostaria de fazer? Julga que algum alguma vez respondeu que gostava muito de andar ali no Picanço na rua não é, com operador de imagem, a fazer, coisa, ali, tá, pum, xi, o cabo [ imperceptível] Não, gostava de apresentar o telejornal, e gostava de ter um programa talk show.
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— Pois,
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— Por quê? E é aí que a coisa vai bater. E a coisa vai bater… à virose da Comunicação Social, é para muitos deles, vem eivados do fenômeno de mostrar a cara. Querem ser conhecidos. Querem ser famosos.
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— Estrelas.
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— Querem ser reconhecidos na rua. Essa porcaria de fazer uma reportagem que nunca ninguém vê a cara do locutor. Ao menos que ele faça um vivo. Acredite nisto que lhe estou a dizer.
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— Sim, eu acredito, eu tenho…eu sei … E dou-lhe minha palavra de honra, e dou-lhe a minha palavra de honra, que isto não é, não é nenhuma azia contra as escolas superiores de Comunicação Social.
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— Oiça, Oiça, eu sei exactamente quando pergunto…
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— São muito meritórias porque eu conheço muitos professores das escolas de Comunicação Social, e eu reconheço que efectivamente são pessoas licenciadas, pessoas qualificadas, julgo até algumas com doutorado feito, com doutoramento feito, são pessoas que são competentes e sabem o que estão a dizer, e sabem o que estão a fazer. Não têm culpa de terem ali à frente uns tipos que querem enveredar por uma profissão para qual… e veja
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— Mas eu gostava de lhe fazer aqui mais umas perguntas. Já iremos aí ao futuro.
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— E veja nas estatísticas que vêm no jornal, ainda outro dia, das profissões mais ambicionadas em Portugal em termos de licenciamento, enquanto a Medicina, a Economia, o Direito, a Gestão Internacional, não sei quê, são coisas assim, não sei o quê, Comunicação Social.
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— Pois.


