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Arquivo de Memória Oral das Profissões da Comunicação

António Luiz Rafael 7 de 15

Entrevistado por Júlia Leitão de Barros * Registado por Paulo Barbosa * Évora 27 de Março de 2017

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— Eu muito, eu aprendi a fazer televisão, eu aprendi a fazer muita televisão com os operadores de imagem. E tinha muito respeito pelos operadores de imagem. E ainda hoje tenho. É uma classe por que eu respeito muito, porque me ajudavam muito. Eu às vezes chegava a um ponto e dizia, eh, pá, fazes aqui, fazes aqui um travelling com esta história, que isto é bonito, aquilo à minha vista aquilo era bonito, e dizia o tipo: mas oh Rafael, há ali um problema que é não sei quantos, porque da esquerda para a direita, e depois há um movimento que vem depois da direita para a esquerda, que não cola, não gruda, era talvez melhor fazer não sei quê. E eu dizia: tens razão pá. Olha o que este gajo me está a ensinar, olha, olha, a porcaria que eu estava praqui a inventar. E então havia aqueles operadores que me ajudavam muito. Além de serem bons… havia outros que eram horríveis. Eu tinha um operador… que trabalhava… ainda no tempo das máquinas que tinha que se pôr a velocidade e… que era tudo aberto, tudo escancarado, era à medida dele. Por exemplo: eu ia ser entrevistado, o gajo montava a máquina, não fazia mais movimento nenhum. Carregava no botão e [imperceptível] Se eu por acaso era daqueles gajos que tinha tiques, que fazia assim, ou que fazia assim, “pois então” , coisas e, não sei quê, quando chegávamos à, ao estúdio, o que aparecia na, na gravação era, por exemplo, uma declaração importante só que o resto estava assim. E eu não podia pôr o gajo assim na, na [imperceptível]. Eu dizia: “oh, pá, tu tens que fazer umas aproximações, uns movimentos com a câmara.” Pra quê? O gajo está a falar fala, que diga. o que tem…Tudo estragado,mas não nos zangávamos.
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— E portanto estamos a falar também do trabalho em equipa, he, he… o trabalho é muito importante.
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— É muito importante, muito, muito importante.
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— Fala-me um bocadinho disso, do trabalho…
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— O trabalho de equipa é que cada um tem que ser competente na área em que vai fazer. Obviamente tentar mostrar que é competente. Segundo, o jornalista quando vai fazer tem que levar a ideia exacta do que vai fazer e não trabalhar ao sabor do, do acaso. A menos, ou como é obviamente, se vou fazer uma reportagem de um incêndio, se vou fazer uma reportagem de um acidente um descarregamento de comboio, eu tenho que ficar subordinado aquilo que me aparece. Não é verdade?
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— Claro.
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— Não posso estar a dizer que “olhe vire-se lá para a esquerda, não sei quê”. É incêndio [imperceptível] Agora quando é uma reportagem com cabeça, tronco e membros, quando é para contar uma história, por pequena que seja… uma das coisas que me assustou na televisão foi quando eu perguntei, pela primeira vez, mandaram-me fazer uma reportagem ao Museu Castro Guimarães a Cascais. Tinha havido um roubo. Roubaram uma peça qualquer, que acho que até hoje nunca mais apareceu. A peça terá sido roubada de um barco que estava ao largo, que mandou um bote a terra. Tudo isto passado à noite. Mandou um bote, um bote a terra. Quando a maré estava a encher, o Museu Castro Guimarães por dentro tem uma espécie de uma…uma baía,
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— Sim, sim.
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— que tem ligação com o mar. Veja lá o… os tipos…maré alta, porque com a maré baixa aquilo não se pode ir lá de barco. Arrombaram lá uma janela, ou uma porta, ou seja lá o que for, roubaram uma peça, já não me lembro se foi uma escultura. Depois fizeram o percurso de regresso. Meteram-se bote foram para o barco e o barco zarpou e [ imperceptível]. Pronto. Eu fiz essa reportagem e contei, contei a reportagem. Mas antes de sair perguntei: isto é reportagem pra quanto? Ah isso um minuto chega. Quanto? Um minuto. Ai meu Deus, pá. Tanto que eu quando comecei a escrever os livros tive uma grande dificuldade porque fui um homem habituado, toda vida, a dizer muito escrevendo pouco. Ou mostrando muito, mas com poucas imagens.
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— A sintetizar.
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— Mas levei um grande louvor do Carlos Cruz, que nessa altura era o director de informação, porque disse que a reportagem num minuto contava o essencial e que estava muito bem feita. Que eu fui, fui… pedi ao operador de imagem para fazer um barco que estava lá ao largo, sei lá que barco é que era, depois fiz o coiso, e … a historinha tava toda contada. Mas aquilo era um trabalho de equipa. Porque o jornalista deve saber o que vai fazer deve levar empinado na cabeça a sequência, até toma apontamento e até estamos aqui fazemos a imagem que será a última na reportagem, e depois vamos fazer uma segunda, que é para meter no meio, e depois vamos fazer, mais tarde, vamos fazer uma, que é a abertura. Mas a gente depois põe aquilo tudo em ordem não é? Portanto deve-se levar isso na cabeça, para não se andar a obrigar quatro pessoas ou não sei quê a andar [ imperceptível] outra maneira. Não, temos aqui. O que é que a gente precisa de imagens deste sítio? Então vamos fazê-las. Agora é a porta, filma a porta. Agora filma ali a coisa, agora filma não sei quê, aqui tá tudo feito. Então agora… Depois a seguir íamos ouvir as pessoas. E aquilo dava tudo certo, no fim. Mas obviamente tinha que ter respeito, por não bater no microfone, por não falar muito alto, para ter uma voz calma, para seguir as indicações do operador, agora mexe-te, agora vira a cabeça, agora não sei quê. Que era para aquilo tar tudo certinho [ imperceptível]nas minhas reportagens começaram a achar muito ridículo. Eu sou um percursor de nas reportagens aparecer o nome do operador …de imagem… e no tempo que eu trabalhava aparecer, aparecer o nome do operador de som. Reportagem de fulano, fulano, fulano. Porque eu achava que eles mereciam ser, ser, ser referenciados. Porque carga de água é que a reportagem que metia cinco pessoas.depois houve um que se pusesse, pusesse o nome…
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— Não, não se dá com nenhum operador de câmara… gostava também de ter acesso a operadores de câmara, não?
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— Os operadores de câmara que estavam na televisão, acho que a grande parte deles, ou a maior parte, já se foi embora. Acho que alguns até já têm tido surpresas infelizes e já tenham morrido.
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— Pois.
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— Sim, mas eu, eu, eu…gostava de ter acesso a algum que também.. está a ver, o outro lado.
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— Olhe, dou-lhe uma pista, eu julgo que ele ainda está na SIC. Tente falar…
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— Vou tirar aqui o nome já.
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— Tente falar com o operador de imagens Manuel Barros Marques.
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— Sim. Manuel Barros Marques?
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— É um brilhante operador de imagem, é um rapaz inteligentíssimo, fala sobre tudo..
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— OK.
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— E diga-lhe que fui eu. E que lhe mando um abraço.
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— Está bem. Tudo.