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Arquivo de Memória Oral das Profissões da Comunicação

António Luiz Rafael 14 de 15

Entrevistado por Júlia Leitão de Barros * Registado por Paulo Barbosa * Évora 27 de Março de 2017

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— Não falaste foi sobre o final da carreira cá na televisão?
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— Depois como é que acabou?
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— A carreira, a carreira foi assim. Apareceu um…A carreira, o final de carreira dividi-se em dois aspectos: Primeiro apareceram os fazedores políticos ou governamentais quase que quiseram extinguir a RTP. Queriam acabar o segundo canal, queriam acabar com as regiões, queriam acabar com não sei quê.
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— E Angola, não sei quê..
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— Eu sei lá, queriam acabar com tudo. Queriam acabar com tudo. Houve praí manifestações, e não sei e não sei quantas Isso foi um aspecto. Depois levantou-se o problema…. …sobretudo quando começou a época Almerindo Marques na RTP… que era preciso mandar pessoal embora. Era preciso mandar pessoal embora, a casa estava muito cheia, a televisão estava com 3 mil empregados ou não sei quê. E aquilo tinha que emagrecer e não quantos e não sei quê. aqui me chegaram fumos disso como começaram a ver que as pessoas não sei o quê, foram para o caminho das rescisões. Então o que é que aconteceu foi o seguinte, eu fui deixando-me estar porque eu dizia assim, pá, enquanto os tipos não me chatearem, alguma vez, e enquanto eu tiver um bocado saúde e tiver tino na cabeça para fazer isto, eu até gosto, o que é que eu vou fazer?…Entretanto cheguei aos 70 anos, de idade. Já me devia ter reformado há que tempos. Quando sucedeu, quando sucedeu, praticamente essa, essa efeméride, de eu fazer, de eu passar a septuagenário, andava a televisão em efervescência, com as rescisões e com os despedimentos e não sei quê. Entretanto o canal 2 já não fechava mas ia ser gerido por particulares…confusões, que afinal voltou tudo ao mesmo. Eu recebi uma carta a dizer que, e aí eles tinham razão, fazendo eu os 70 anos, segundo o regulamento e não sei quê, não sei quê, não sei quê, o meu contrato de trabalho tinha que cessar, e ia ser substituído por contratos mensais. De resto eu podia continuar na mesma. Mas aí o bom do Rafael começou cá com os carretos a trabalhar e a dizer assim: eh pá, isto está numa fase em que ninguém se entende, lá na minha casa aquilo anda tudo a jogar ao boxe, aquilo vai uma confusão das antigas. ora estes tipos…eu já passei a idade da reforma, não houve problemas. Mas agora vieram com isto e de facto é verdade, isto é legal, não há nenhuma ilegalidade nisto. Agora imaginemos que no meio dessas confusões eles dizem eh pá vamos acabar com as delegações ou vamos tirar o Rafael lá de baixo e não sei quê. E acabou e não sei quê. Não fazemos mais contratos porque são mensais. Mandamos-lhe o aviso de 30 dias e acabou. Podem fazê-lo. Mas espera aí António. Tu tens 70 anos, talvez já seja a idade para teres juízo e descansares um bocado, e sobretudo talvez seja a idade e a altura de aproveitares a rescisão. Ora eu tenho 29 anos de casa, fiz as contas: isto ainda dá um bocadito de massa. Eh pá, olhem, acabou. E mandei uma carta pra cima, a dizer que aceitava a rescisão. Ainda nesse dia ou no dia seguinte, ou coisa que o valha, no dia seguinte talvez, telefona-me o José Rodrigues Santos: “oh, António tenho aqui na secretária a tua carta, para pedir a …Tu queres mesmo rescindir pá? É que tu és preciso aí.. eh pá, péra aí José…eh, pá,isso é…isso não são conversas para ter com o telefone, eu vou aí a Lisboa para falar contigo. E fui a Lisboa. Fui a Lisboa falei com ele e disse: Ó Zé, 70 anos, recebi esta carta, olha recebi, eh, pá, eu embora não esteja aqui, sei lá em baixo o que é que se tá a passar. Aí há um maluco qualquer dia pôe este gajo na rua. Eu assim ainda posso furar uns “dinheiritos”. Vou aproveitar essa situação, também já não sou jovem e não sei quê, eh, pá e pronto e cá vamos. Eh pá talvez tenhas razão[imperceptível] Fui para a rescisão. Rescindi e acabou-se.
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— E não tem colaborado em nada, nada?
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— Entretanto esse tal grupo, esse tal grupo de, esse tal grupo de Comunicação Social publica o único jornal diário no alentejo que só se publica ao sábado e ao domingo, que é o Diário do Sul, tem também uma estação de rádio. Começou por ser uma rádio pirata, depois foi legalizada, e não sei quê, não sei quê. Mas está a ser dirigida por pessoas que percebem tanto de rádio como eu percebo de cozinha. Mas eu fui. Olhe, diz olhe, eu faço, em termos de escrito faço uma crónica semanal, em termos de rádio posso fazer um programa mas também não é pra ir para a cabine tocar discos . Olhe, posso fazer um programa de entrevistas. Bom. Pagando? Tá bem. Então, fazia a crónica calmamente aqui em casa. Carregava lá nos botões do com, com, do computador, mandava o escrito pra cima. E ia lá às terças-feiras gravar o programa, que era uma hora, que se chamava “Falar a dois”, que entrevistei, eu tenho aí a listagem guardada, eu entrevistei, cerca de 400 pessoas… eh, pá, entrevistei governadores, governadores civis, entrevistei, entrevistei fadistas, entrevistei tipos dos partidos políticos, entrevistei tipos, tipos do seminário, entrevistei o arcebispo…eu sei lá quem é que eu entrevistei, nem, nem, nem eu sei…presidentes da câmara, tenho aí a listagem. Montes de gente. Esse grupo de Comunicação Social é propriedade de uma família e isto, isto transformado em português corrente, permite-me dar-vos um conselho: nunca trabalhem pra nenhuma empresa, firma, seja o que for, que seja familiar. Porque problemas já os arranjam eles uns com os outros. Pai com o filho, o filho mais velho é que manda..
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— É o pai, é o filho…
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— Concluindo,a certa altura vieram-me com a cantiga, quando começou agora a crise, e não sei quê, que davam [imperceptível]… as crónicas iam deixar de pagar. Então, mas eu faço a porcaria da crónica, aquilo eram duas colunas por semana, eu fazia aquilo. Ah, mas as crónicas têm que ser mais curtas. Mau. Então, olhe, crónicas acabou. O programa da rádio pagavam-me. E até nem pagavam mal. Ah, mas o programa da rádio também não podemos, também não podemos pagar, porque é muito caro e não sei quê. Disse oh meu amigo, então acabou o programa da rádio. Ah, mas você pode escrever uma coisa para os jornais. Tá bem, quando tiverem escrevo. De vez em quando passava por lá. Então há alguma coisa? Não, não há nada, não sei quê. Então, há alguma coisa? Não pá, isto agora, não sei quê. Até vamos reduzir o número de páginas e não sei quantos… Concluindo, digo assim, estes tipos estão é mortinhos por se ver livres de mim. De maneira que calmamente quando numa tarde eles disseram que não havia nada: ah vai pra casa, vá pró pé da mulher, uma boa noite e não sei quê. Eu disse: então boa noite. Olhe, também era Paulo. Era e é que ainda é vivo. Então oh Paulo, uma boa noite para si. Até hoje. Nem escrevi uma carta, nem, nem discuti com ninguém, porque sou, sou inimigo de arranjar zaragatas.
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— Então, mas e o outro, o outro estúdio da RTP não, também não, ninguém lhe pede nada?
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— Não, o estúdio da RTP não, esse acabou, foi desmontado
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— Esse acabou, está fechado?
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— Não…
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— É que isso faz impressão não é?
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— Aquilo era um rés-de-chão e primeiro andar. Quando eu vim pra cá só ocupávamos o primeiro…
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— Então agora se houver uma coisa, aqui em Évora, como é que fazem…
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— Telefonam, telefonam para ali…
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— E vêm a correr para cá…
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— E vêm a correr fazer. E depois manda aquilo por fibra, fibra óptica, antigamente mandava-se por feixe.
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— Está bem, está bem.
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— Tínhamos, tinhamos uma torre de feixes aqui, por especial deferência do município, como é património mundial não podia ter aquilo, mas tinha, aquele feixe estava direccionado ao Mendro, que é ao pé da Vidigueira, o Mendro recebia o sinal e chutava porque também via Monsanto. De maneira que a gente mandava daqui o trabalho com muita facilidade… Mas julga que os tipos do jornal até hoje me telefonaram a dizer: então oh Rafael o que é feito de ti. Nunca disseram nada. Ficou assim, acabou. Foi aí que eu digo assim: e agora? Arrumar livros [imperceptível] quieto, porque lá pra dentro há outra sala que ainda está pior do que esta. Digo assim vou escrever um livro?
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— Ah, pois, tinha-me dito.
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— Eu vou lhe dar. Vou lhe dar… vou escrever um livro, vou escrever um romance. Pá, pronto, escrevi o melhor que pude fiz um romance de 160 páginas, que se chama “Sara a paixão entre o Alentejo e Moçambique”, então é uma história que está, que está, num sítio hipotético, do Alentejo [imperceptível]…que tem as suas aventuras e não sei quê, passa pra Moçambique, não sei quê, não sei quê. A Colibri publicou-o. Não vendeu mal. Não foi nenhum êxito. Achei piada que eu pedi a um revisor, que é um professor de Universidade, eh, pá, por favor, veja-me o texto, sobretudo a pontuação. E ele fez, e disse “gostei”. Disse-lhe assim: o que é que você acha? mas [imperceptível]você é meu amigo, vai-me dizer de verdade, oh Rafael isto é uma porcaria, não vale… Não, dizia ele: Olhe, há uma coisa que eu lhe posso garantir, não vai ser Prémio Nobel. Mas o livro lê-se. Tá bem. Saiu. Não, não esgotou mas vendeu bem, vendeu bem. Vendeu bem ao ponto que estou a escrever outro que já, já tenho ali o manuscrito já vai na, na página, em manuscrito, já vai na página 90 e não sei quantos. Já, já está pra’li.
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— Muito bem.
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— Maneira que assim tenho, tenho entretido o tempo.
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— Nunca voltou a Moçambique?
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— Nunca. Eu tenho como..olhe tenho lá o meu pai sepultado, o meu pai faleceu lá. A minha mãe faleceu cá. Mas tenho o seguinte raciocínio em relação a isso. Pode ser caricato, mas é…olhe cada um é para o que lhe dá. Não sei se já vos disse. Se já vos disse digam, que é para eu não se repetir. Da felicidade, que a gente só dá [ imperceptível].
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— Depois.
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— Pronto. Primeiro, será essa, essa ideia. Mas antes disso há outra preposição, que eu, que eu [ imperceptível] Eu gostei sempre de deixar os sítios ou de me lembrar, lembrar, dos sítios consoante os conheci e vivi. Não me interessa aquilo que se passou depois. E eu sei, não tendo absolutamente ideias racistas nem xenófobas, dei-me sempre bem com os pretos, apertava-lhes as mãos os tipos gostavam de mim, tratavam-me Rafael. Gostavam. Mas quero morrer com a Moçambique que eu conheci na minha cabeça. Porque eu hoje ia lá e não, não gostava de estar lá. Aquilo está mudado, a sociedade é outra, as maneiras de estar na vida são outras.
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— Mas sempre que tem informações de Moçambique gosta de saber como é que tá?
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— Ah tenho, tenho, pla, pla, pelo Facebook há muitos dos meus amigos… o livro, o livro foi pra Moçambique. E caramba, o que eu recebi pá aí de mensagens de Moçambique. O livro foi pra Moçambique. Gosto de saber, mas não quero. Então a analogia que eu faço: é com os meus pais quando morreram. Eu neguei-me a ver o meu pai e a ver a minha mãe mortos.
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— Eu percebo.
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— Quando foi do enterramento eu disse não, eu quero toda vida lembrar-me da cara do meu pai como o conheci, quero lembrar-me da cara da minha mãe como a conheci. Não quero saber se tinham os olhos abertos, se estavam com a boca torta, se estavam [imperceptível]. Eh pá, não. E com Moçambique sigo, sigo mais ou menos essa prática. Eu quero lembrar-me de Moçambique sempre como a conheci. Gostava de ir lá. Mas, mas ia-me arrepender, ia-me arrepender. Olhe, o Pinto Coelho foi lá várias vezes, já morreu também, coitado, a mãe do Pinto Coelho, que era a Sara Pinto Coelho, era professora primária, como na altura se dizia, e era directora do teatro [ imperceptível]do Rádio Clube Moçambique. Eu conheci o Carlos Pinto Coelho..
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— O pintor, está a falar?
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— Não, o que fazia o programa Acontece.
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— Ah, do outro, do Carlos Pinto Coelho, sim..é que são tantos Pinto Coelho agora …
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— O Pinto Coelho tinha casa aqui, tinha casa aqui perto de Reguengos, a gente encontrava-se muitas vezes. Olhe eu entrevistei-o também para o meu programa, lá da… O Pinto Coelho encontrava-o muitas vezes, jantámos muitas vezes juntos e encontrávamos com, com muita frequência. Tive um grande desgosto. A mulher dele é funcionária, a viúva é funcionária da RTP. Tive um grande desgosto com a morte do Pinto Coelho, exactamente por ser como foi e essas coisas. Naturalmente até são boas para quem morre, desligou o interruptor e acabou. Andar tipo com as dores e não sei quê. Não, não vale a pena. Mas é só por isso. A minha mulher é angolana, mas também tem, gostava muito de ir a Angola, mas… minha mulher é de Nova Lisboa.
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— Ah é, é de Angola, que giro…
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— A minha mulher é de Angola.
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— Pois. Ela não sei se está a descansar, se está lá para dentro, mas antes de vocês irem embora vou ver como é que ela está para, para vos apresentar.
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— Com certeza.
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— Em relação aos trabalhos que fez, a nível quer de rádio, quer de televisão, há assim algum tipo de trabalho que lhe tenha dado mais gozo ou que se orgulhe mais..
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— Eu já lhe fiz essa pergunta. acabámos nas entrevistas.
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— Olhe, pra rádio gostei de fazer tudo. Pra rádio gostei de fazer tudo, gostava muito de cabine, gostava muito de cabine. Gostava de fazer as entrevistas, gostava de fazer, fazer [imperceptível], gostava não sei quê, mas fundamentalmente gostava da cabine. Sentia-me tranquilo, sentia-me tão bem dentro da cabine sozinho, era uma maravilha. Apanhava era constipações desgraçadas porque o ar-condicionado depois vinha cá pra fora estavam 40 graus, daí a dois dias, dois dias estava constipado. Na televisão não sei, olhe fiz muitos dias de Portugal em directo, fiz muitos 25 de abril da Avenida da Liberdade, directo… eh pá, não sei, gostei muito de trabalhar no, no, no, na área regional, gostei muito de trabalhar na área regional, para lhe dizer em boa verdade não gostava do telejornal. Ainda hoje não gosto. Não gosto dos telejornais…mas gosto, gosto de ver programas, gosto de ver programas que me dêem algum interesse, que não tenho pachorra para as novelas, nem, nem pensar nisso. Deus me livre. Não sei. Mas a entrevista na televisão seduzia-me, gostava. Também nunca tive ambições nem sequer pensava nisso, de fazer programas de concurso, e não sei quê, não, nem pensar nisso, deus me livre. Não. Nem ir, nem ir apresentar artistas pro Coliseu, não.
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— Entretenimento, não é?
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— Não , não. A fazer galas de ouro como à, como à SIC, com a senhora que vem vestida com não sei quê, o outro que vem com laço não sei quê, não. Gosto de fazer aquilo que a profissão se constituiu para fazer, fez-se a casa para se fazer televisão, faça-se televisão, mas faça-se bem feito ou minimamente bem feito. Criou-se uma estação de rádio, faça-se rádio, que hoje coitada, quem é que hoje ouve rádio os automobilistas quando vão ou vêm de casa, e…à madrugada, tipo os bombeiros e não sei quê Mas agora também como as televisões trabalham de madrugada, mas… a partir das 6 da manhã tens as televendas não é, que é uma coisa horrorosa, mas aquilo dá dinheiro que farta. Mas não. Mas não. Acho que se não se faz televisão que eu considere de qualidade. Tecnicamente sim. O tempo da televisão a preto e branco tinha coisas excelentes de má qualidade. Por quê? Porque os meios utilizados eram parcos. Hoje efetivamente, e a RTP nisso é campeã, a RTP tem, tem, tem um material do melhor que há. Aliás, nota-se na imagem. A SIC, a TVI, carros de exteriores são alugados e não sei quê. Nós temos os nossos carros de estúdio e não sei quantos e não sei quê. Temos, temos, temos bom equipamento de imagem, temos excelente equipamento, temos excelentes profissionais de estúdio, temos, temos excelentes realizadores, temos, temos muito bons produtores. A televisão tem um excelente pessoal. Falta-lhe é alguém que lhe, que, que lhes consiga tirar todas as capacidades que eles são possíveis. Eles fizeram agora este programa último do Festival da Canção, que é uma banalidade, mas aquilo em termos, em termos pra mim de televisão estava perfeito, estava bom. E acredite, a SIC não fazia melhor e a TVI nem pensar nisso. E eu ainda me lembro do que é que foi a TVI quando começou sob a égide da igreja que aquilo era de fugir, com a Olga Cardoso. Meu Deus.

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