Entrevistado por Júlia Leitão de Barros * Registado por Paulo Barbosa * Évora 27 de Março de 2017
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— Olhe, e, e acha que a nossa sociedade reconhece a profissão de repórter e de jornalista?
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— Não. Houve uma época que reconheceu. Mas, com a, com o sistema que a Comunicação Social, a partir de certa altura, começou a tomar… sabe, a Comunicação Social na minha, na minha óptica, em certos aspectos e certos… não vamos generalizar, não, não vamos meter tudo no mesmo saco. Não é dizer que o Alentejo é uma chatice mas não é o Alentejo. Há coisas que são boas, pronto. Tem pessoas: é pá, os alentejanos são uns chatos, pronto. São uns chatos quer dizer… Fulano, Fulano, Fulano é chato. Os outros não são. E com, com a política é a mesma coisa. Eu acho que os jornais, a televisão… bom, como é que eu hei-de dizer isto, isto está a ser gravado mas isto não é para ser transmitido, não tem importância.
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— Pois, já sabe que tem, que vai ver…o que não quiser…
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— Não, não vou ver, acredito que aquele amigo está a fazer um bom trabalho. Deus me livre ir ouvir o Ra..o Rafael [ imperceptível]. Não. Tenho a noção que a Comunicação Social está hoje parti, partidarizada, cada uma com a sua facção, uns são do Benfica, outros são do Sporting, outros são do Belenenses porque se nota por vezes até nos escritos a tendência, nota-se [ imperceptível] a tendência. E há, e há certo tipo de jornalismo em que o jornalista tem quase que o papel de pesquisador…carcereiro…juiz, quer dizer, há certa Comunicação Social que dá a ideia que ela é que manda, ela é que diz, e ela é que, ela é que indica o caminho. Campanhas sistemáticas quando não se gosta de determinada pessoa [imperceptível] por exemplo, o que é que interessa pôr num título de um jornal, eu vou, vou dizer um nome aleatório, o Joaquim é primeiro-ministro. Mas o Manuel, que por acaso é primo em segundo grau dele, fez uma vigarice qualquer, na Covilhã [imperceptível] na Covilhã não, se não dizem que eu estou a falar do, do outro. Não. Fez, fez, fez uma vigarice, fez uma vigarice, fez, fez…fez, fez uma vigarice em Freixo de Espada à Cinta, pronto. O Jaquim que é primeiro-ministro não tem nada a ver com a vigarice que, que o primo em segundo grau fez.
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— É o que mais faltava…
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— Título do jornal: preso primo de não sei quantos. Preso o primo do Manuel. Mas o que é isto?
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— É, mas, portanto, acha que, que as coisas pioraram nesse aspecto?
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— Acho que pioraram, acho que os jornais…
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— Mas tendo vivido na altura do Estado Novo, em que as coisas eram tão enquadradas…
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— Mas eu isso do Estado Novo, isso é um caixote que pra mim tá, isso é um caixote que pra mim tá arrumado.
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— Mas depois disso…
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— Tínhamos… por exemplo, eu trabalhei no Estado Novo muitos anos, mas não me sinto culpabilizado de nada. Porque que eu fazia o que me mandavam fazer…
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— Não, não é isso…Eu tô a dizer é, eu tô a dizer é… Pronto, as coisas estão mal agora…
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— O Artur Agostinho costumava dizer uma coisa que é verdade: Quando eu dizia na Rádio Moçambique em plena época de salazarismo, que o ministro não sei quê, tinha sido recebido por três mil pessoas, grosso modo, é porque estavam lá três mil pessoas. Eu nunca disse a um ouvinte que estavam lá 3 mil e estavam lá 20.
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— Sim, pois.
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— Agora o que é que eu tinha que dizer? O ministro tinha muita gente à espera, tem cerca de 30 mil pessoas, então que, que crime é que eu cometi? Estou a ser da situação por causa disso?
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— Pois não. Não é isso que eu estou a dizer.
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— Mas hoje não, hoje há perseguições, há personalidades perseguidas que são massacradas, que são, não podem fazer nada que não são logo notícia, e, efectivamente, o jornalista é um relator ou um relatador, como queiram, de factos, de assuntos, que trabalha à sua maneira, com a sua capacidade intelectual, explica, tem que fazer textos que o ministro perceba, mas que a minha porteira também entenda, não pode, não podemos viver num mundo de super intelectuais, como se pretende hoje. E em segundo lugar, o jornalista hoje está convencido que tem um poder na mão em que ele é o juiz, o executor, o carcereiro, é tudo.
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— E olhe, eu queria lhe perguntar outra coisa.
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— E não é isso. Os jornais estão a perder por causa disso.
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— Não respondeu à minha pergunta.
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— E repare que hoje, grosso modo, a população diz mal do jornalismo. Nunca se ouviu dizer tanto… [ imperceptível]culpa não sei quê, por causa da Comunicação Social. Tudo isto aconteceu por causa da Comunicação. A Comunicação Social está mancomunada, está a fazer o frete, e não sei quê. [ imperceptível]ouvem isto.
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— Mas, é, portanto, a minha pergunta era esta, se achava que a nossa sociedade reconhecia a, a profissão.
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— Não tá não.
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— Acha que não, acha
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— Não, tenho a a noção…
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— Portanto a conclusão é essa.
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— Tenho a noção, tenho a noção de que posso estar errado.
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— Há muita crítica, não é?
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— Tenho a noção que posso estar errado.
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— Sim, sim.
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— Portanto, não sou oráculo, não sou oráculo nenhum. Mas eu tenho a noção que a Comunicação Social hoje não é respeitada. Não é considerada. São uns tipos que estão ao serviço de… E alguns estarão, talvez.
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— E o que que acha que está… Sobretudo essas empresas, essas empresas de Comunicação Social, não sei quê, são altamente duvidosas.


