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Arquivo de Memória Oral das Profissões da Comunicação

António Luiz Rafael 1 de 15

Entrevistado por Júlia Leitão de Barros * Registado por Paulo Barbosa * Évora 27 de Março de 2017

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Estamos em Évora, em casa do António Luís Rafael, no dia 27 de março de 2017. São 3 da tarde e vamos ter aqui uma conversa sobre o percurso deste jornalista, locutor… da rádio e da televisão
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— Da rádio, da televisão e escritor também.
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— Escritor, e ultimamente escritor… e é isto
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— Bem, eu ia começar…
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— Pelo princípio.
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— Pelo princípio, pelo princípio. Onde é que nasceu, em que ano em que sítio, seus pais o que faziam, essas coisas
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— Eu nasci em Lisboa…
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— Em Lisboa…
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— Em Lisboa, na rua Carlos Mardel ao Areeiro ..
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— Sim…
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— Ah… em 5 de fevereiro de 1933.
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— Não sou uma pessoa velha, sou uma pessoa idosa…
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— Claro.
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— E às vezes até inverto a idade e em vez de 84 sai 48, Mas isso, isso, isso é uma graça. O meu pai era funcionário do Estado, foi diretor dos Correios em Moçambique, diretor da…
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— [ imperceptível] director geral dos Correios em Moçambique. E a minha mãe à boa maneira da época era doméstica.
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— Era doméstica.
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— E assim,toda vida assim o foi. O meu pai foi para África muito antes de eu nascer. Por lá andou durante muitos anos, levado por um tio meu que era padre, que foi pra lá como missionário, foi superior da missão de São Paulo de Messano, que fica a uns quilómetros da antiga Lourenço Marques. Regressou a Lisboa anos mais tarde com o meu pai. Meu pai aborreceu-se de Moçambique. E o meu pai ficou na reforma e o meu tio foi pra prior da Igreja de Penha de França onde esteve 29 anos como pároco. O meu pai era natural de Louriçal do Campo, distrito de Castelo Branco, eu lisboeta, a minha mãe lisboeta. No ano de 1948, princípios de 49, meu pai disse que eu não tinha futuro aqui…
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— Mas andou no liceu, como é que foi a sua formação?
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— A minha formação foi fazer a instrução primária e depois fazer os três primeiros anos do liceu Camões.
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— No Camões. No liceu Camões..
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— Depois fui acabar em Lourenço Marques no Liceu Salazar.
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— Em 1948, bem…
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— No Camões. No liceu Camões..
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— Depois fui acabar em Lourenço Marques no Liceu Salazar.
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— Ah, agora pode ir para 48, sim…
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— Posso,
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— E então..
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— Em 1948, …o meu pai, eu comecei a fazer umas macadas na rádio..
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— Na Rádio Peninsular.
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— Na Rádio Peninsular na Rua Voz do Operário. Agora fale um bocadinho dessa.. é que que andei a procura de várias coisas da Rádio Peninsular mas e percebi, mas…
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— Não, é assim… existia em Lisboa, existia em Lisboa, além da Emissora Nacional, do Rádio Clube Português e da Rádio Renascença, havia uma rede de emissores que era chamada a Rede dos Emissores Associados de Lisboa. Trabalhavam x horas por dia cada um, a partir do mesmo emissor. Portanto, quando acabavam as emissões diziam a seguir: “vai vai estar no ar a emissão da Rádio Graça e não sei o quantos, e não sei o quê, a quem desejamos uma boa emissão” e pronto. Então aquilo havia a Rádio Graça, havia a Rádio Peninsular Voz de Lisboa, que era onde eu andei.
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— Pois
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— Havia a Rádio São Mamede, que era na rua São Mamede, perto da igreja, havia a Rádio Restauração, que era na Costa do Castelo e havia… Ah, e havia o Clube Radiofónico de Portugal, que era na rua Dona Maria no Bairro das Colónias que mais tarde se transportou para a Rua Carlos Mardel onde eu nasci.
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— Ah, devia ter começado por aí, mas não, foi pela Rádio Peninsular.
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— Pela Rádio Peninsular. – Onde o rádio.., na, na, na, no Clube Radiofónico de Portugal ainda fiz duas ou três coisas mas aborreci-me com àquilo, não achei piada nenhuma àquilo
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— Mas como é que, que foi, como é que, como é que…
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— Havia um amigo meu, que trabalhava numa companhia de seguros, que já morreu, e que era actor, actor profissional, nas horas vagas, mas figura de segundo plano ou terceiro plano, que tinha um programa na Rádio Peninsular que se dedicava a apresentar semanalmente uma rubrica de música francesa. A embaixada recebia os discos, últimas, as últimas novidades de França esse meu colega que se chamava Carlos Gomes, esse meu amigo, [ imperceptível] eu achei piada àquilo comecei a acompanhá-lo em alguns programas. Mas não só. O grande bichinho de, de contágio, nasce da ida dos meus pais para a Parede, em 1900 e… eu tinha um ano de idade, ou ano e meio, não posso precisar. Onde estive a viver até aos 7 anos ou 8 anos, coisa que valha. O que que havia na Parede? O Rádio Clube Português. Com um edifício espantoso – p’rá época, com estúdios, com auditório, jardins à volta, tinha campo de ténis, tinha campo de golfe, aquilo era uma coisa… à moda do concelho de Cascais, zona do Estoril, não é? Ainda hoje estou para saber o que é que levou o Rádio Clube Português a vir para Lisboa e transformar-se depois em seguida em rádio comercial e trabalhar numa garagem de um prédio, na Sampaio e Pina. Foi uma coisa que eu, que eu nunca entendi. Porque eu entretanto fui para a África e os nossos contactos [imperceptível] eram com a emissora, só. O Rádio Clube trabalhava com a emissora e a emissora trabalhava connosco. Bom, concluindo, nessa rádio gra…nessa Rádio Peninsular apareceu também como caloiro, a dar os primeiros passos, o Henrique Mendes. De quem eu me tornei muito amigo e não sei quê. E havia um programa, que era um programa do Dr. Vasco Botelho do Amaral, que já morreu, em que o homem era um defensor acérrimo da língua portuguesa. E então tinha um programa na Rádio Peninsular todas as semanas, dedicada à difusão, cultura e aperfeiçoamento da língua portuguesa que se chamava “As intransigências do Senhor Caturra”. O que é que o homem resolve, meter-me como locutor daquele programa, porque achava que eu tinha muito boa voz e não sei quê, Ás duas por três o Dr. Laranjeira, que era o director da Rádio Peninsular, achou que eu poderia fazer umas “emissõeszitas”. Havia uma cabine assim dentro de uma casa como esta, numa sala como esta…
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— Eram dois, não eram, os Laranjeiras, não eram?
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— Não, era marido e mulher.
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— Ah, era marido e mulher.
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— Era marido em mulher. O nome dela é que eu já não me lembro. Mas eles tinham também, além da Rádio Peninsular, tinham um certificado, como é que se chama isso.. uma licença.
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— Uma licença sim.
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— … para ter outra rádio que era a Voz de Lisboa Mas essa Voz de Lisboa nunca teve autorização do Estado, do Estado, pra, pra ser posta no ar. Maneira que aquilo dizia-se: Rádio Peninsular a Voz de Lisboa.
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— E. e funcionava onde?
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— Na Rua Voz do Operário. No penúltimo, ou ante…Não, ao topo da Rua Voz do Operário, praticamente no Largo da Graça.
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— Mas assim num pequeno andar…
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— Não, não. No andar de um sindicato, num terceiro andar. Tinham um salão de festas que era utilizado por nós, com palco, só que depois havia uma sala do tamanho destas na qual construíram uma cabine e tinha depois uma mesa de montagem com um pickup de cada lado e ao meio os equipamentos…os cursores dos microfones e não sei quê…era só isso.

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